Resenhas

#Resenha: Tudo o que nunca contei – Celeste Ng

15, jun, 2017 Wellington Rafael

Título: Tudo o que eu nunca contei
Autor: Celeste Ng
Editora: Intrínseca
Ano: 2017

Sinopse:Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem. Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar? À medida que a polícia tenta desvendar o caso do desaparecimento, os familiares de Lydia descobrem que mal a conheciam. E a resposta surpreendente também está muito abaixo da superfície.

Antes da Intrínseca me mandar esse livro, eu tinha visto ele na livraria leitura e peguei para folheá-lo e o começo do livro já me prendeu de primeira.

“Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã.”

Tudo o que nunca contei conta a história da família Lee. Estamos em Ohio, Estados Unidos, em uma época de grande discriminação racial: 1977. Como sabemos, naquela época a sociedade era bem machista e racista. As mulheres eram ensinadas que nasceram para ser somente boas esposas e boas mães e somente os homens era vistos como dignos de trabalharem. Também era uma época em que a discriminação de “raças” era bem forte, a família Lee sofria um grande preconceito pelo fato do casamento de um chinês com uma americana. É claro que esse preconceito não impediu Marilyn de se apaixonar e constituir uma família com o oriental James. A família Lee é composta por Marilyn (americana), James (chinês), Nath (o primeiro filho – mais velho), Lydia (a filha do meio) e Hannah (a filha comum).

Marilyn era estudante de medicina, por isso conheceu James, que era seu professor. Tinha planos se se formar, seguir carreira e ser bem sucedida. Não queria viver o mesmo que sua mãe, ficar em casa cozinhando ovos de todos os jeitos ou ser uma boa mãe para seus dez filhos. Mas todo esse sonho é deixado de lado quando ela fica gravida de seu primeiro filho.

Anos depois com três filhos que não se encaixavam nos padrões americanos (mestiços), Marilyn começa a repensar coisas do seu passado, pensar em muitas coisas que ela acabou deixando para trás para conviver com a sua família. Ela e o marido colocam suas expectativas todas em sua filha Lydia, a filha do meio, que nasceu com lindos olhos azuis como os da mãe americana. Lydia cresce sendo guiada a viver alguns sonhos, a mãe acredita que a filha será uma grande médica, enquanto o pai acredita que a aparência da adolescente será a que a tornara popular e Lydia será aceita e tratada como igual, mesmo possuindo origem mestiça.

Descobri que não estou feliz com minha vida. Sempre tive em mente um tipo de vida, e as coisas acabaram acontecendo de um jeito muito diferente.

Porém certa manhã Lydia não aparece para o habitual café da manhã, sendo encontrada dias depois morta em um lago próximo a residência da família. Assassinato? Suicídio? Mas porquê se matar? Lydia era a favorita, a mais linda, a esperança da família. São esses questionamentos que fazem você querer terminar a leitura. Você vai entrando dentro de uma história familiar tão bem escrita e tenebrosa ao mesmo tempo que te prende na leitura. A narrativa em si não segue uma linha do tempo, em um capitulo estamos vendo o desenrolar do mistério da morte de Lydia e em outro a autora nos leva de volta ao passado para entender como tudo começou. Acontecimentos do passado são relatados por todos os integrantes da família, de James a Hannah e vamos montando um quebra-cabeça para conhecer a história de Lydia, que não conhecemos muito bem porque já está morta no começo da leitura.

No começo achei que seria um thriller sobre descobrir quem matou Lydia ou porque ela cometeu suícidio, mas não. O que encontramos na história é um efeito dominó. Uma série de erros que foi levando a outros e tudo foi desmoronando encoberto por um tecido falso de felicidade. A autora aborda uma série de problemas familiares, o foco dela não é a solução do ocorrido, mas sim em mostrar como uma família pode destruir uns aos outros, principalmente com o preconceito.

Tudo o que nunca contei é um verdadeiro retrato da falta de comunicação, compreensão e amor no lar. Poderia dizer que é um drama da vida real com pessoas insatisfeitas com o que tem, preocupadas apenas com seu nariz, incapazes de olhar para as outras pessoas, incapazes de terem afeto, incapazes de olharem para dentro de si. O preconceito destrói de dentro para fora.