Resenhas

#Resenha: “Noite sobre as águas”, de Ken Follet

16, out, 2016 Paulo Guerra

Título: Noite sobre as águas

Autor: Ken Follet

Ano: 2016

Páginas: 429

Editora: Arqueiro

Sinopse: Em 1939, com a guerra a acabar de ser declarada, um grupo de pessoas privilegiadas embarca no mais luxuoso avião de sempre, o Pan American Clipper, com destino a Nova Iorque: um aristocrata britânico, um cientista alemão, um assassino e a sua escolta, uma jovem em fuga do marido e um ladrão encantador, mas sem escrúpulos. Durante trinta horas, não há escapatória possível desse palácio voador. Sobre o Atlântico, a tensão vai crescendo até finalmente explodir num clímax dramático e perigoso.

Era o ano de 1939. O verão despontava na Europa em meio a um sentimento de extrema insegurança. A ascensão de Hitler na Alemanha e o contínuo crescimento do comunismo russo fragilizaram cada vez mais a linha já tênue que demarcava o limite entre a paz e um possível conflito mundial. Nessa época, com a finalidade de transportar os cidadãos entre a Inglaterra e os EUA, foi criado pela empresa de transportes aéreos PanAmerican o mais conhecido hidroavião daquele tempo. Procurando conciliar velocidade e conforto, surge o Boeing-314, conhecido popularmente como Clipper. Imenso, imponente e extraordinariamente belo, tornou-se o meio de transporte mais luxuoso do mundo da época. Na descrição do próprio autor, ele “se assemelhava a uma baleia alada”.

Por fim, a guerra eclode. A Aliança se posiciona contra o Eixo, e o mundo, nos primeiros momentos do conflito, imerge num sentimento de profunda aflição. Nesse momento, um grupo de pessoas, de nacionalidade diversa, resolve embarcar no Clipper a fim de realizar o que seria a última viagem através do Atlântico. Um cientista alemão fugindo dos nazistas, um aristocrata inglês e sua família, um ladrão de joias, uma empresária americana e algumas outras figuras muito peculiares compõem a lista de passageiros do hidroavião. A viagem estava prestes a começar, até que, por meio de um telefonema, o Engenheiro de voo Eddie Deakin toma conhecimento do que ele mais temia – uma quadrilha de gangsteres toma o controle do voo. Agora, Deakin tem em suas mãos a vida de todos que se encontram a bordo, e terá que tomar decisões complexas e arriscadas, se quiser sair vivo dessa situação.

Já de início adianto que Ken Follet escreveu uma obra muito boa para se ler. O leitor irá se inserir num mundo de suspense e tensão, que com o passar dos capítulos tornam-se cada vez mais intensos. O hidroavião usado na história é real, e de fato foi criado no ano da Grande Guerra para o mesmo objetivo já explicitado acima. Os personagens, entretanto, são fictícios, bem como a história criada pelo autor.

A narrativa é dividida em seis partes, cada uma referente a uma localização específica da viagem. O autor se utiliza da 3ª pessoa, porém consegue, articuladamente, imergir na mente dos personagens de tal maneira que os pensamentos destes sejam trazidos para um primeiro plano, caracterizando, de certa forma, uma narração que mistura a onisciência do narrador e as falas dos personagens. Em alguns momentos, o leitor até pensa que a história está sendo contada na primeira pessoa. Esse jogo de linguagem é importantíssimo para que o leitor se aproxime mais da história.

Em cada capítulo do livro é narrada a vida de um ou mais personagens. O autor explora a fundo as características de cada um, dando um ar peculiar à história. Mais do que investigar a tensão à qual o engenheiro de voo está sendo exposto pelo controle dos mafiosos no avião, Follet busca se aprofundar na personalidade de cada passageiro, bem como nos seus passados, alguns angustiantes, outros escusos. Assim, o foco do livro é muito mais a vida de cada personagem do que o conflito principal da história. De certa forma, isso contribui para um maior apego às figuras da narrativa, mas também deixa de se aprofundar no que realmente interessa ao leitor desde o início do livro. Entretanto, não fique decepcionado com isso. Afinal, foi isso que fez desse livro uma obra muito bem estruturada.

No demais, Ken Follet usa de elementos essenciais para o bom entendimento da história. Seus conhecimentos sobre a estrutura do hidroavião e das propriedades técnicas do veículo revelaram uma profunda pesquisa para a escrita do livro. Cada parte do Clipper é perfeitamente caracterizada, fazendo com que o leitor de fato se sinta dentro dele e faça parte da viagem. Além disso, os sistemas totalitários que eclodiram no contexto da Segunda Guerra Mundial, tais como o nazismo e o fascismo, são representados de maneira magistral pelo autor, que trata com profundidade o ambiente, o clima e as diversas opiniões ideológicas que surgiram na época.

“Noite sobre as águas” não só é uma excelente história de espionagem e suspense, mas um retrato de um dos períodos mais tenebrosos que a humanidade já contemplou. Por meio de personagens incrivelmente bem criados, Ken Follet explora os pecados mais profundos do homem, e o que cada um de nós ousa fazer para alcançar nossos objetivos. Uma trama recheada de suspense e marcada por situações de extrema expectativa fazem desse livro uma obra digna de ser lida.