Nosso Livro

Epílogo – O Som do Amanhã

11, mar, 2017 Luana Leão

Epílogo

São Paulo, 21 de Fevereiro de 2014

Sedina Pub – 20h

 

Saltei do taxi e desequilibrei na calçada. Retirei meus sapatos dando um solavanco nos pés e eles pularam cada um para um canto. Continuei a caminhar atormentada e cambaleante, descalço. Eu tinha pouco tempo. Sabia disso. Aqueles comprimidos já estavam começando a mostrar para que vieram e eu sabia que o espetáculo que eles prometiam fazer não seria nada agradável. Dei uma última olhada para o céu.

A felicidade não é algo grandioso. Ela é tão pequena que podemos deixá-la escapar. Olhamos para cima à noite e apenas reparamos na beleza das estrelas, sem lembrar que o que as fazem bonitas, é a escuridão do céu.

Pena que percebi isso tarde demais.

Mas ainda dava tempo de pedir desculpas. Ao menos isso eu devia a ele.

Quanto a mim…jamais conseguiria me perdoar. Tudo o que joguei fora por…

Por que mesmo? Naquela hora, nem eu conseguia me lembrar.

– Como sou idiota! O que foi que eu fiz… – minha voz saiu tremida.

A realidade me espancou com alarvaria poucas horas antes.

Estava eu, num quarto de hotel me encarando vestida de noiva pelo espelho, totalmente infeliz. Estava prestes a me casar com um homem que eu não amava por causa de mais fama e mais dinheiro. Porque aquele romance, dava lucro, jogando fora a possibilidade de finalmente viver um grande amor, em prol de mais sucesso para a banda.

Aquilo, era o melhor para o All Stranger. E o que era melhor para mim?

Saí do meu quarto e caminhei pelo corredor deserto rumo ao quarto de Luigi. Precisava ouvir dele que eu estava tomando a decisão certa. Que tudo iria ficar bem. Que no final desse teatro infernal, Rick e eu poderíamos ficar juntos. Ele iria compreender. Entenderia que eu não tive escolha e me aceitaria de volta! Luigi prometeu que as coisas se ajeitariam após o casamento. Mas eu precisava ouvir isso dele novamente! Precisava ter a certeza de que Rick e eu ficaríamos juntos daqui a pouco tempo! Luigi era a minha maior fonte de força e meu melhor amigo! Sempre me falava as coisas certas nas horas certas!

A porta estava entreaberta e ouvi vozes. Parecia uma discussão. Entrei cautelosamente andando pela antessala. As vozes vinham do quarto. Eram de Luigi e Ryan.

– Ryan, não me vá desistir dessa merda bem agora! Eu custei a tirar aquele idiota do Ricardo do caminho! Por anos eu escondi aquelas músicas melosas da Sol para ela nem cogitar a possibilidade de ir atrás dele. Mas aí, aquele moleque insistente decide aparecer pessoalmente em nossas vidas!

– Ela parece triste…

– Foda-se se ela está triste! Enfia droga nela! Não é isso que você vem fazendo durante todos esses anos? Dá algo mais forte pra ela ficar feliz da vida!!

– Luigi, eu a amo de verdade.

– Justamente, queridinho! Você vai deixar a mulher que você ama cair nos braços de outro?

– Ela nunca será minha completamente.

– Era só o que me faltava – bufou – Ela vai ser sua esposa. Isso que importa.

– Mas vai ficar se encontrando as escondidas com aquele…aquele…

– Não se preocupe! Falei isso para ela ficar tranquila e aceitar o casamento. Mas depois, vamos vazar daqui e Rick Donnas nunca mais vai aparecer novamente em nossas vidas! All Stranger vai continuar sendo a banda de rock de mais sucesso no mundo e vamos continuar controlando a Sol como sempre fizemos! Só fingir que a amamos, que queremos o seu melhor, jogar na cara dela o fato de que a banda quase acabou por causa dela, a grana que gastamos com advogados…aquelas baboseiras todas.

– Sabemos que ela não teve culpa nenhuma nessa história. O cara já tinha consumido droga antes de entrar naquela festinha. Drogas que você deu pra ele enquanto transavam. Ele já estava a um passo de ter uma overdose por sua culpa. Eu vi ele saindo parecendo um zumbi do seu quarto antes de ver a porta do quarto da Sol aberta e entrar.

– Fale baixo! Eu sei disso…você sabe disso, mas a Sol não. Nunca devia ter contado isso pra você! – rosnou.

– Você não me contou nada, eu vi!

– Já pedi pra você falar baixo!

– Luigi, quando eu falo que a amo não estou fingindo…

– Ah honey bee, eu sei…só me garanta que ela vai estar lá nesse casamento feliz da vida, ok? Onde estão aqueles comprimidos que você ficou de arranjar?

Sai daquele quarto desnorteada.

Tudo na minha vida era uma grande mentira.

Até a culpa que eu carregava comigo era uma enorme mentira.

Luigi. Como ele pôde? Eu o amava como um irmão! Eu acreditava nele…confiava nele…

Pouco tempo depois estava eu numa limusine atônita rumo ao casamento.

– Você é a noiva mais linda desse mundo – Luigi sorriu. – Lembre-se em sorrir, honey bee. Em breve você estará nos braços do Rick! Falta pouco agora.

Porque eu não reagia? Nem raiva eu conseguia sentir. Foi como seu eu tivesse perdido os sentidos e meu corpo estava sendo levado pela inércia.

– Tome isso – Luigi me entregou um frasco e uma garrafa de água. – Dois comprimidos e se sentirá a garota mais feliz desse mundo.

Chegamos no lugar.

– Vamos avisar que você chegou. Fique aqui na limusine – Luigi desceu.

Encarei o frasco em minhas mãos.

Abri.

Coloquei todos os comprimidos na boca, mastiguei e bebi a água para ajudar a descer.

– Venha! Estão todos te esperando.

Desci do carro.

As portas do casarão se abriram e uma infinidade de pessoas me olharam. Ao longe, Ryan sorriu.

Como um estalo, acordei. E finalmente consegui reagir.

Virei as costas e corri.

Eu tinha pouco tempo.

A fila para entrar na Sedina dobrava o quarteirão. Tentei caminhar rumo a porta de entrada o mais rápido possível.

– Meu Deus! Olha aquela garota vestida de noiva!

– Espera aí! Aquela não é a Sol Fierce?

– Olha gente! É a Sol Fierce!

– Sol Fierce?

– O que ela está fazendo?

– Ela fugiu do casamento! A notícia está em todo lugar!

Com grande dificuldade, consegui chegar até a imensa porta de madeira. Tropecei no pequeno degrau e cai. Não consegui me levantar. Minhas mãos tremiam. Minhas pernas tremiam. Minha boca tremia.

Um grupo de pessoas se aproximaram e me ajudaram a levantar.

– Pre…preciso entrar…entrar aí – falei sem fôlego.

As pessoas olharam entre si e começaram a bater na porta. Socavam a porta com tanta brutalidade, como se suas vidas dependessem disso, sem saberem que, na verdade, a minha vida é que dependia daquilo.

Dezenas de pessoas começaram a me rodear. Pessoas me puxando, me abraçando a força, tirando fotos, outras tentando me proteger, empurrando a multidão eufórica para longe.

A porta se abriu e fui jogada para dentro me debruçando no chão.

Alguns indivíduos tentaram entrar comigo, mas os funcionários da Sedina conseguiram contê-los e fecharam a porta.

– Você se machucou? – perguntou um rapaz alto e forte de olhar convalescente.

Encarei Ricardo que me fitava assustado e pálido.

– Sol, o que você fez? – finalmente ele conseguiu falar.

– Eu…eu… – disse cambaleante me aproximando dele – Eu precisa te ver. Precisava…precisava… pedir desculpas.

Cheguei até onde ele estava e minhas pernas cederam mais um vez.

– Sol! Minha nossa! O que está acontecendo?

Rick me enlaçou em seus braços e sentamos no chão. Parte do meu corpo em seu colo, recebendo o seu amor por mais alguns poucos minutos.

– O que você fez? – sua voz transcendia a preocupação. Ela estava repleta de pavor, desespero.

– Tomei… alguns… comprimidos – custei a dizer.

Meu estômago ardia como se estivesse recheado de ácido. Minha garganta parecia que tinha uma bola dentro e meus pulmões pararam de executar sua função. Minha vista começou a embaralhar e senti tanto frio como se tivesse acabado de entrar num freezer. Cada parte do meu corpo doía. Definitivamente meus ossos haviam se partido ao meio. Tentei erguer as mãos mas não conseguia mais controlar os músculos do meu corpo que pulsavam em movimentos descoordenados.

Chegou a hora.

– Luan ligue para um ambulância, pelo amor de Deus! Agora – Rick berrou desesperado. – Calma Sol! Você vai ficar bem! – seus olhos encheram de lágrimas.

– Me…me des…desculpa Rick!

Desculpa pelas minhas decisões erradas.

Desculpa pela minha covardia.

Desculpa por ter fugido de você.

Desculpa por não ter acreditado que nosso amor valia mais a pena que qualquer outra coisa.

Desculpa por ter confiado nas pessoas erradas, sendo que eu precisava era apenas confiar em você.

Desculpa por tudo que não vivemos.

Desculpa…Poderia ter sido lindo.

– Não precisa se desculpar! Está tudo bem! Está tudo bem! – passou a mão em meu rosto e olhou para um rapaz que estava ao seu lado – Me ajude aqui! O que eu devo fazer?

Um líquido quente e amargo subiu em minha garganta e tentei empurrá-lo de volta para o estômago.

– O que você tomou Sol? O que você fez?

– Rick! – a tremedeira ficou ainda mais forte – Eu…te…amo! – tentei falar o mais alto que conseguia. – Eu…eu…sempre te…te…amei! Eu…sinto…sinto muito por todas…essas…decisões erradas. Seja muito…muito…fe…feliz!

O líquido voltou ainda mais forte e saiu pela minha boca.

Parei de sentir frio.

Parei de sentir dor.

Senti sono. Muito sono.

Então…me deixei levar e um último pensamento meu deixou em paz…

Finalmente nos braços do meu amor. Agora vai ficar tudo bem.