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Crítica | 3% (3 por cento)

28, nov, 2016 Kaio Arantes

Título: 3% (3 por cento)
Temporada: 1 (8 episódios)
Ano: 2016
Gênero: Drama, ficção científica, distopia

Em um futuro distópico, o Brasil vive em um estado gigante de pobreza e violência, mas ao completarem 20 anos, as pessoas ganham a chance de se inscreverem em um processo seletivo para ir para Marauto, ou O Lado de Lá, um lugar maravilhoso sem problemas sociais ou doenças. Entretanto apenas 3% conseguem passar pela árdua e cruel seleção.

Primeira série nacional produzida pela Netflix, que teve sua estreia no dia 25 desse mês. A ideia dessa distopia começou lá em 2011, em que o roteirista Pedro Aguilera lançou no youtube o curta brasileiro distópico 3%. Com muita luta, anos depois a Netflix “compra” a ideia e a série é então repaginada e lançada.
A série não é das melhores, mas desponta pela boa produção e pela boa intenção. Lá em 2011, a serie teria sido totalmente original e inovadora, mas, por azar, muitas obras foram lançadas com esse mesmo cenário distópico, seja mostrando uma sociedade divida em duas castas (dois extremos) ou mostrando um tipo de teste ou seleção para que os oprimidos consigam um lugar entre os opressores. Mesmo assim, a série explora esse cenário a seu próprio modo, mas fica impossível a não comparação com títulos como Jogos Vorazes e Elysium, por exemplo.

Algo já meio comum entre obras brasileiras é explorar a diversidade e aqui não é diferente. Temos negros, por exemplo, em diferente níveis e posições sociais. Além disso, a obra passa fácil no teste de Teste de Bechdel com ótimas personagens femininas e de grande expressão na trama. Temos até um cadeirante entre os personagens principais. E nada de mocinhos e bandidos, a aposta é na dualidade.
Aos poucos, vamos sendo apresentados a eles e a seus passados. O interessante é que a série deixa bem claro que eles estão ali não simplesmente pra cumprir o teste por querer ir para o Lado de Lá. Eles tem algo a mais. Um motivo a mais. A verdade é que as atuações não são lá das melhores, inclusive a de João Miguel, talvez o maior nome entre os personagens constantes, mas vamos ser sinceros, atuações de séries, no geral, são medianas. Devido a superficialidade das interpretações demora para o espectador a se apegar aos personagens, mas depois que a série engrena, lá pelo episódio 3, o carisma aflora e isso deixa de ser um grande problema.

 

3-por-cento-netflix

 

Como disse, fica difícil fazer um roteiro original sobre distopia nos dias de hoje. A série cumpre bem essa parte e vai além, dá um ótimo background para os personagens importantes. Só falha em pequenos pontos, deixando alguns furos na trama, mas perdoável se você não for tão exigente.
O que parece é que a série tem grandes críticas para fazer. As cenas que mostram os candidatos se preparando para o Processo e chegando no local lembra muito o que vemos sobre o ENEM. A trama tenta, aparentemente, discutir esse processos seletivos exaustivos, além de outras críticas sociais, mas tudo acaba sendo superficial e a série foca na ficção mesmo. Na minha opinião, o melhor episódio é o 4º, onde há um experimento onde os candidatos são confinados em um ambiente “sem lei” e são avaliados pelo comportamento. Lembra muito Ensaio sobre a cegueira e o episódio é muito bem produzido e conduz muito bem a mensagem nesse ponto.
Um problema é que as vezes o roteiro força a barra. O personagem Fernando tem uma motivação. No meio da série, as coisas mudam de figura e ele acaba tendo um motivação secundária que acaba superando a primeira, graças à um outro personagem. Infelizmente essa motivação não convence de forma alguma e parece que acontece só porque tá escrito no roteiro mesmo. E esse é apenas um exemplo. O final é meio sem emoção e tem um pequeno cliffhanger para a (ainda não confirmada) segunda temporada, mas encerra esse ciclo.

A direção geral (e de alguns episódios) é feita pelo César Charlone. Charlone é conhecido por ser diretor fotográfico/fotógrafo em filmes, mas aqui marca presença na direção principal. Indicado ao Oscar por Cidade de Deus, já trabalhou em grandes filmes, como o citado anteriormente Ensaio sobre a cegueira e O Jardineiro Fiel. Algo comum em suas obras são as tomadas por detrás dos personagens, em que a câmera é móvel, balançando, mudando de anglo e de foco, recurso usado muitas vezes na série, do qual gosto muito.
O que peca um pouco é na parte da arte. Os pobres que vivem no Continente, ou do Lado de Cá, são sujos e usam roupas rasgadas. Roupas essas, minunciosamente rasgadas. É meio forçada essa parte, mas toda a construção da tecnologia e nos momentos com efeitos de computação gráficas (CGI) são bem feitas. Então a produção acaba oscilando um pouco, mas é mais boa que ruim.
A trilha sonora me agradou bastante. Alguns personagens ganharam música tema, como a Joana (melhor personagem na opinião desse que vos escreve).

A série 3% era uma grande promessa, mas peca em alguns pontos importantes, como inovação, atuações e roteiro. Apesar das críticas, a série tem muito o que mostrar e vale lembrar que é rara as obras de ficção científica aqui em terras tupiniquins. Não é uma estreia tímida e é uma ótima entrada do Brasil nesse cenário internacional proporcionado pela Netflix.
Baixe um pouco as expectativas e aproveite o entretenimento em bom português.