Nosso Livro

Capítulo 15 – O Som do Amanhã

17, fev, 2017 Luana Leão

Capítulo 15

São Paulo, 31 de janeiro de 2014

Escola de Música Melodia das Cordas – 18h

 

– Tente de novo Bia! – a incentivei com um sorriso.

– Nunca vou conseguir! – curvou a cabeça para baixo.

– É claro que vai! Você é uma excelente cantora, só precisa treinar mais o violão.

– As pessoas falam que não sou boa o bastante. Que eu tenho que desistir.

Fitei Bia sério.

– Olhe pra mim.

Bia ergueu a cabeça timidamente.

– Jamais… ouça bem, jamais permita que alguém diga a você que não é capaz de fazer algo. Você é capaz de tudo, Bia! Nunca duvide do seu potencial. Você sempre vai encontrar pessoas para te derrubar, te passar rasteiras, para rir quando você escorregar e cair no chão. Difícil é encontrar alguém com coragem para te dar a mão e te ajudar a levantar. Caso não encontre essa pessoa, use a força das próprias pernas para se levantar. Use sua própria coragem para persistir, sua enorme vontade para vencer. Porque você precisa de apenas uma pessoa que acredite em você. Sabe quem?

– Quem?

– Você mesma.

Bia deu um sorriso acanhado.

– Você é boa o bastante Bia. Basta treinar e nunca desistir. Agora tente novamente.

Bia segurou com firmeza o violão e começou a tocar.

Ela me lembrava alguém.

Sol.

Bia era uma garota de dezesseis anos, baixa e gordinha. Seus dedos curtos e inchados tornavam alguns acordes uma missão de grande esforço. Era uma cantora nata. Sua voz entrava em meus ouvidos como poesia. Toda vez que ela cantava, eu tinha que me segurar para não chorar tamanha emoção que sua voz transmitia. Era lindo de se ver, lindo de se ouvir.

Seus cabelos curtos, na altura do queixo, pretos, lisos e brilhosos, deixava seu rosto ainda mais redondo. Bochechas fartas e vermelhas. Olhos castanhos claros e atentos.

Os acordes soaram com perfeição e Bia completou a música com êxito.

– Parabéns garota! Não disse que iria conseguir?

Seus olhos brilharam de emoção.

– Obrigada por acreditar em mim!

– Mas é claro que eu acredito! Você nasceu para a música Bia! Sabe, conheço uma pessoa que se parecia muito com você e hoje, é uma cantora de grande sucesso!

– Mesmo? – sorriu com empolgação.

– Sim! Hoje ela viaja o mundo inteiro em grandes turnês.

– Será que um dia eu também vou fazer turnês pelo mundo?

– É claro que vai! Basta se dedicar, treinar e…

– Acreditar em mim mesma?

– Isso aí! – segurei em seu ombro. – Acreditar em você!

– Minhas amigas disseram que eu posso ter muito talento, mas se eu não mudar meu físico, não vai adiantar nada.

Minha boca entreabriu chocado.

– Pra começo de conversa, se elas te disseram isso, trate de mudar de amizade, porque elas não são suas amigas. E outra coisa, você é linda do jeito que você é.

– Tudo bem professor. Eu sei o que eu sou. Nenhum garoto se apaixonaria por mim. Não com o tamanho que estou.

– Bia, se você fosse alguns anos mais velha, eu me apaixonaria por você.

– Você diz isso porque é um homem gentil.

– Não! Digo isso porque é verdade. Você é linda! Só um garoto muito idiota para não perceber isso – sorri com sinceridade.

Bateram na porta da minha sala. Olhei no relógio.

– Bom! Por hoje é só! Te vejo na segunda.

Bia se levantou com dificuldade e ajeitou o violão em sua case emborrachada.

– Até segunda! – sorriu. – E professor…obrigada por tudo – acenou com a mão e saiu.

Sorri. Bia era uma garota de um coração tão puro.

Comecei a ajeitar as partituras. Aquela era minha última aula do dia e eu tinha que me organizar para tocar na Sedina. Senti a presença de alguém atrás de mim e me virei.

– O que está fazendo aqui? – perguntei exasperado.

– Nossa! Oi primeiro né?

Suspirei.

– Oi Aline! O que está fazendo aqui?

– Quero conversar com você! Não atende às minhas ligações. Quero pedir desculpas.

– Não temos mais nada o que conversar. Você já disse tudo o que pensava ao meu respeito naquele dia.

– Rick! Eu estava com raiva! Com medo de te perder e falei aquelas merdas todas para fazer a Sol desistir de você! Sabe que não penso isso! Eu te amo! Como iria pensar aquelas barbaridades?

Quatro semanas atrás, quando Aline flagrou a Sol saindo do meu apartamento, as coisas saíram um pouco do controle.

– Então é ela! – disse raivosa. –  A mulher por quem você é apaixonado é a vagabunda da Sol Fierce.

Sol me olhou assustada. Ela não estava com medo de Aline, ela estava com medo do que Aline podia fazer com aquela informação.

– Sol não é uma vagabunda e…

– Uma piranha desgraçada! Está de casamento marcado com Ryan e veio aqui correr atrás do meu homem. O que será que Ryan irá pensar quando souber que você está transando com outro? O que será que o seus fãs irão achar disso? – berrou exaltada.

– Aline…

– Não percebe Rick? Ela só vai te usar! Afinal, o que Sol Fierce vai querer com um suburbano como você, que dá aula numa escolinha caindo aos pedaços para sobreviver e aos finais de semana dá uma de cantor num pub de quinta categoria? – gargalhou com desdém. – É claro que ela jamais teria coragem de largar Ryan Adams, gato, famoso, parceiro, pra ficar com você Rick. Você não se enxerga? – uivou.

Sol me encarou.

– Eu estava enganada Rick. Acho que ela não te ama de verdade. Eu te ligo – piscou e saiu.

– Cala a sua boca vadia miserável!

E antes que Aline avançasse em Sol, a segurei pelo braço e a puxei para dentro do apartamento.

Depois de intermináveis discussões, Aline saiu furiosa. Todos os dias eu olhava o jornal e revistas de fofocas para ver se ela tinha soltado a língua de alguma coisa. Mas quatro semanas se passaram e nada havia saído. Ela não contou a ninguém. Ainda.

Sol e eu passamos a nos falar quase todos os dias e nos encontramos outras três vezes. Fizemos amor com ainda mais paixão e desespero, como se tivéssemos uma sede insaciável um pelo outro. Eu não via a hora de ficarmos juntos de verdade, sem precisar esconder nosso romance de ninguém. Ela dissera que já havia falado com Luigi e ele pediu algum tempo para desenvolver uma estratégia boa o bastante para que a banda não saísse prejudicada. Pediu para não deixar Ryan desconfiar de nada, pois ele era cabeça quente e poderia colocar tudo a perder. Eu não gostava da ideia de ver Sol recebendo carícias de Ryan em todos os eventos que iam. Evitava assistir quando passava na TV. Mas ela disse que desde aquele dia, nunca mais havia dormido com ele.

Só me restava acreditar.

Não queria perder a Sol novamente e tentei ser compreensivo. Eu entendia o peso que estava em suas costas e não queria ser mais um. Nosso amor tinha que ser liberdade e não prisão.

– Na verdade Aline, acho que aquilo é exatamente o que pensa de mim. O que eu não entendo é porque ainda insiste em ficar comigo, sendo que me despreza tanto.

– Eu não te desprezo. Eu te amo!

– Nossa! Forma esquisita de se amar alguém – terminei de arrumar as coisas, coloquei todos os papeis em cima da mesa na lateral da pequena sala e fui saindo.

Minha sala tinha vinte metros quadrados e paredes com forramento acústico. Dispunha de dois sofás de dois lugares um de frente ao outro e uma mesa no canto. Um tapete entre os sofás, um violão, uma guitarra e um amplificador. Milhares de partituras e nada mais.

Aline me seguiu. Tranquei a sala, deixei a chave na recepção.

– Até segunda Maycon – acenei para o recepcionista.

A escola funcionava até as dez da noite. Outros professores ainda estavam dando aulas de piano, violino, sax, e diversos outros instrumentos. Eu dava aulas de violão e guitarra. Normalmente ficava até as oito ou nove da noite. Mas dias de sexta, minha última aula era das cinco às seis da tarde.

Ao contrário do que foi dito por Aline, a escola de música Melodia das Cordas era um sobrado muito bem estruturado, salas novinhas em folha, dirigido por pessoas fantásticas e professores muito qualificados. Um ambiente agradável e alunos promissores.

Cheguei até meu carro e encostei nele.

– Diga logo o que quer Aline. Tenho algumas coisas pra resolver antes e ir tocar num pub de quinta categoria, que aliás, você frequentava.

Aline mordeu a parte de dentro da bochecha.

– Sedina é um pub legal! Sinto muito por todas aquelas coisas que eu disse. Foi da boca pra fora.

– Tudo bem! Se era só isso… – desencostei do carro e apertei a chave para destrancar as portas.

– Cheguei a procurar um amigo meu que é colunista de revista para contar sobre o caso da Sol Fierce com você!

Nessa hora meu coração pulsou forte e minhas mãos gelaram.

– Você fez isso? – a encarei apreensivo.

– Não.

Suspirei aliviado.

– Por enquanto.

Cerrei os olhos desconfiado.

– Por enquanto?

Aline passou as mãos em seus cabelos.

– Quero você de volta. Não tem porque eu estragar a vida daquela…daquelazinha se você me prometer nunca mais vê-la e se voltarmos as boas como antes.

Fiquei encarando Aline desacreditado. Aquilo era uma ameaça?

– Você…você não está fazendo isso que eu estou pensando, está? – a olhei de lado.

– Só quero que as coisas voltem a ser como antes. Só isso!

Dei uma risada irônica.

– Está me ameaçando?

– Rick, estou tentando te fazer enxergar a realidade. Seu lugar é ao meu lado e o lugar da Sol é ao lado de Ryan, com a banda dela, com a carreira dela. Ninguém precisa sair machucado dessa história – tentou passar a mão em meu rosto mas eu desviei.

– Você é incrível – falei de forma sarcástica.

Abri a porta do carro e entrei.

– Vou te dar um tempo pra pensar. Mas não vou esperar muito – falou alto porque os vidros estavam fechados. – Ela vai se casar com ele, Rick. Você viu o ensaio que fizeram para a revista Festas & Noivos? Ela está toda feliz vestida de noiva nos braços do Ryan. Ela pertence a ele! Está na internet! Ela quer você como amante, Rick! – bateu a mão no vidro –  Vai ficar te levando a banho Maria até não poder mais! Não percebe? Ela vai se casar com ele e vai continuar te encontrando às escondidas.

Liguei o carro e acelerei. Aline se afastou para eu não passar em cima de seus pés.

Dirigi velozmente e parei em frente à Sedina.

Bati na porta e alguns segundos depois o segurança abriu.

– Oi Rick! Chegou cedo hoje.

– Oi Marcos! Pois é! Vim direto da escola!

– Entra aí!

Entrei no pub e sentei nas cadeiras em frente ao bar.

O barman estava arrumando as taças e foi até mim.

– E ai Rick? Chegou cedo! Está com uma cara terrível, vou te servir um whisky!

– Obrigado Lucca! Estou precisando mesmo.

Ele me serviu e tomei um gole. Peguei meu celular e acessei a internet. Quando vi, meus dedos estavam digitando ENSAIO CASAMENTO SOL E RYAN.

Bum…um monte de fotos apareceram. Sol vestida de noiva no colo de Ryan, que estava num terno prata. Sol sorrindo com a testa colada na de Ryan. Mãos entrelaçadas. Beijo apaixonado. Abraço apertado.

Meus dedos corriam as fotos velozmente e uma raiva se apossou de mim. Peguei o copo com whisky e arremessei no chão.

– Droga – gritei.

Lucca deu um salto.

– O que foi isso Ricardo? – perguntou assustado.

Olhei para o chão e depois o fitei constrangido.

– Me perdoe Lucca. Me…me passa um pano. Eu limpo isso! Me desculpe!

– Cara, relaxa! Vá até o banheiro e joga uma água nesse rosto. Depois vá arrumar suas coisas, deixa que eu cuido disso. E o que quer que seja que tenha provocado isso, não leve para o palco. Sabe como o patrão é. Nada de trazer problemas para cá!

– Sim, claro – esfreguei a barba. – Obrigado irmão! E me desculpe novamente.

No banheiro, joguei uma água no rosto na tentativa de me acalmar.

– É só a merda de um ensaio. Isso não quer dizer nada. Ela não vai se casar com ele. Deve ser mais uma porcaria de contrato que ela teve que cumprir.

Fiquei repetindo isso por algum tempo, tentando me convencer daquilo. Mas a verdade era que estava chegando a data do casamento e Sol ainda não tinha falado nada sobre cancelar o evento. Ao contrário, a notícia estava em todo lugar. O possível lugar onde a cerimônia iria ser realizada, como seria a decoração, quem seriam os convidados. Cada dia saía algo sobre o casamento. Eu não queria pressioná-la, mas aquele teatro já estava indo longe demais.

Salvei uma das fotos e mandei para o celular dela com a seguinte mensagem: ATÉ QUANDO VAI ISSO?

Me encarei no espelho, enxuguei o rosto e sai para arrumar os instrumentos.

Meu celular apitou.

SOL: SINTO MUITO FAZER VOCÊ PASSAR POR ISSO. SÃO CONTRATOS QUE EU JÁ TINHA ASSINADO.

EU: FALTAM APENAS TRÊS SEMANAS PARA O CASAMENTO SOL. POR QUE VOCÊ AINDA NÃO CANCELOU ISSO?

SOL: PORQUE AINDA NÃO POSSO.

EU: E QUANDO É QUE VAI PODER? QUANDO É QUE VAMOS FICAR JUNTOS?

SOL: JÁ ESTAMOS JUNTOS.

EU:  NÃO. NÃO ESTAMOS. ESTAMOS NOS ENCONTRANDO COMO DOIS BANDIDOS. ÀS ESCONDIDAS. QUANDO É QUE VAMOS PODER FICAR JUNTOS DE VERDADE?

SOL: PRECISO DE MAIS TEMPO.

Suspirei inconformado. Talvez Aline tivesse razão. Talvez a Sol não estivesse tão empenhada assim em terminar com Ryan.

EU: SEU TEMPO ACABOU.

SOL: VAMOS CONVERSAR SOBRE ISSO PESSOALMENTE. VOU ARRUMAR UM JEITO DE PASSAR NA SUA CASA SEMANA QUE VEM, OK?

EU: SÓ ME PROCURE NOVAMENTE QUANDO SUA SITUAÇÃO COM RYAN ESTIVER RESOLVIDA.

Desliguei o celular.

Isso era tudo o que eu não queria fazer. Não queria pressionar a Sol. Mas o comentário de Aline deixou um ninho de pulgas atrás da minha orelha. Me deixou inseguro e mais, me deixou desconfiado.

As horas voaram e quando eu vi, já tinha passado mais de meia noite. Tentei não pensar mais em Solange e me entreguei para a música.

– Obrigado pelo carinho de sempre, galera. Agora vou dar um intervalo e volto daqui a pouco.

Todos aplaudiram e assoviaram.

Me joguei num banco em frente ao bar que ficava na lateral do pub.

– Mais calmo parceiro?

– Sim! Me vê o de sempre.

– Whisky puro.

– Isso! – pisquei.

Tirei o celular do bolso da calça e fiquei tentando a liga-lo. Mas não o fiz e devolvi para o bolso.

– Uma taça de dry Martini gelada por favor – falou um homem que acabara de sentar ao meu lado. – Boa noite Ricardo!

Olhei para o lado e o reconheci de imediato. Alto, cabelos lisos jogados, olhos cor de mel, rosto delicado e afeminado.

– Luigi! – depois olhei para trás – A Sol está com você?

– Não querido! Eu vim sozinho! Sol está no Emiliano lançando um perfume.

– Ela te mandou aqui, foi? Pra tentar me convencer a esperar mais – bufei.

– Também não. Vim porque eu quis. Porque eu precisava falar com você.

As bebidas chegaram e dei um gole. Luigi fez o mesmo.

– Você provocou uma confusão enorme na cabecinha da minha honey bee, sabia?

– Não foi essa minha intenção. Só quero poder viver esse amor sem tantos obstáculos.

Luigi sorriu.

– Sabe que isso é impossível, não sabe?

– Impossível?

Luigi tomou mais um gole de seu Martini.

– Rick, posso te chamar assim? – acenei com a cabeça positivamente e ele continuou – Bom Rick, a Sol por quem você se apaixonou não é a mesma Sol que você encontrou agora. Essa nova Sol é uma super star. Tem muita coisa envolvida nisso. Muita gente envolvida. Nada é mais importante hoje pra ela, do que a sua própria carreira.

Levantei a sobrancelha.

– O que você está querendo dizer?

– Estou querendo dizer que não há espaço na vida dela pra você – disse em tom perfídio.

Dei um sorriso sem graça e virei o copo de whisky de uma só vez.

– Sol disse que você iria nos ajudar a ficar juntos sem prejudicar a banda. Pelo visto você tem outros planos.

– Não querido! Eu vou ajudá-los!

O encarei confuso.

– Rick, toda vez que quiserem se encontrar, podem contar comigo! Eu dou um jeito! Mas entenda que vocês jamais poderão assumir esse romance. Sol vai se casar com Ryan, tudo vai continuar como está, a diferença é que ela vai poder viver essa história mal resolvida com você debaixo dos panos. Podem se encontrar sempre! Quando estivermos fora do país, eu arranjo as passagens pra você, hotel, essas coisas! Simples assim!

As palavras de Aline vieram imediatamente na minha cabeça: “Vai ficar te levando a banho Maria até não poder mais! Não percebe? Ela vai se casar com ele e vai continuar te encontrando às escondidas.”

Apertei o copo entre as mãos com tanta força que ele estourou.

Luigi arregalou os olhos.

O sangue começou a escorrer entre meus dedos e eu soltei os cacos.

– Nunca! Você me entendeu? Nunca vou me submeter a esse papel! Nunca – gritei, me levantei e fui até o banheiro.

Enfiei a mão ensanguentada debaixo da água e gemi de dor.

Lucca chegou logo em seguida.

– Pretende quebrar todos os copos do bar hoje?

– Eu vou pagar, diga ao Luan. Ele pode descontar do meu pagamento se preferir.

– Não é isso, Rick! Vá pra casa! Coloque as ideias no lugar e volte amanhã, tudo bem? O DJ vai tomar conta da noite hoje – disse-me entregando um pano de prato – Enrole isso na sua mão e por favor, resolva isso que está te deixando louco logo, ok?

Peguei o pano de prato e fiz o que ele disse.

Saí do banheiro e olhei para o bar. Luigi não estava mais lá.

Caminhei rumo a saída apressadamente, entrei dentro do carro e arranquei.

– Vou resolver isso é hoje!

Segui em direção ao Emiliano. A rua do Hotel estava lotada. Cheia de carros e pessoas. Estacionei o carro na rua de trás e fui andando.  Na entrada fui barrado por um segurança.

– Pois não senhor?

– O que é isso? – falei fingindo surpresa. – Estou hospedado nesse hotel! Acabei de sair, não está me reconhecendo? Ainda acenei pra você! Saí para dar uma volta e fui assaltado! Veja! Me cortaram com uma faca! Cidade violenta essa!

– Eu não me lembro…senhor eu…preciso de uma identificação.

– Está surdo? Acabei de dizer que fui assaltado! Que absurdo! Paguei um diária caríssima para ficar hospedado aqui e agora não posso entrar? Chame o gerente! Farei uma reclamação por escrito! Qual o seu nome mesmo?

– Não será necessário senhor! Me desculpe! Estamos tendo um evento aqui e o senhor não imagina a quantidade de pessoas que querem entrar no Hotel despercebidos.

– Bom, não estou tentando entrar despercebido. Sou um hospede ensanguentado – levantei a mão – Isso não é exatamente querer ser discreto, é? Vou dar queixa na polícia! Só preciso me lavar antes, se claro, eu puder entrar no hotel no qual estou hospedado.

O segurança abriu as portas de vidro.

– Temos um médico de plantão. Basta ligar no 188 do seu quarto e solicitar o serviço.

– Obrigado! É o que farei!

Entrei.

Os recepcionistas estavam ocupados demais e nem perceberam a minha entrada. O saguão estava lotado de pessoas. Verifiquei na placa de alumínio localizada ao lado do balcão da recepção o rumo do salão de eventos e fui para lá.

Assim que pisei no salão, mais um amontoado de pessoas extremante bem vestidas circulava pelo lugar. Fui passando entre elas até chegar num bloqueio de repórteres. Sol estava logo a frente segurando um vidro de perfume que levava o seu nome. Usava um macacão verde longo e solto em seu corpo com um decote em V que a deixava extremamente elegante e sensual. Seus cabelos levemente ondulados e negros como a noite resplandeciam conforme ela se movia. Ininterruptos flashes eram disparados em sua direção. Tentei furar o muro de repórteres que bloqueavam o acesso a ela e um deles me empurrou, jogando-me para frente praticamente em cima dela. Sol me olhou com surpresa, ou espanto, não consegui identificar.

– Rick? O que está fazendo aqui?

Em seguida olhou pra minha mão.

– O que aconteceu com você?

Ela se aproximou e segurou em meu braço.

– Minha nossa Rick! Você está ferido! O que aconteceu?

– Preciso falar com você Sol! Vai mesmo se casar com Ryan e espera que eu aceite isso com tranquilidade?

– Esse não é aquele mesmo fã que invadiu uma coletiva do All Stranger? – falou um rapaz alto com uma câmera na mão.

– É ele mesmo! – falou outro.

– Rick, você precisa sair daqui! Vá para um hospital e cuide desse ferimento. Eu passo em seu apartamento mais tarde – sussurrou.

– Não vou a lugar algum. Você precisa decidir o que quer da vida Sol! Luigi me disse que você vai se casar com Ryan. Isso é verdade? Você quer que eu seja o seu amante? Eu não…você acha mesmo que eu aceitaria isso? – falei atordoado.

– Agora não é hora, Rick! Estou no meio de um evento! Nós conversamos e…

– Quem é ele Sol? – um terceiro indagou.

– Quando vai ser a nossa hora Sol? Quando? – segurei em seu braço.

– Quem é ele Sol?

– É, quem é ele?

Flashes em disparado praticamente ofuscaram a minha visão.

– É Sol! Está na hora de dizer a todos! Quem sou eu?