Nosso Livro

Capítulo 13 – O Som do Amanhã

03, fev, 2017 Luana Leão

Livro Segundo

Capítulo 13

São Paulo, 05 de Janeiro de 2015

Edifício Cristal, Higienópolis – 21h

 

Ela ficava linda descalço, com apenas a calcinha de algodão preta e minha camisa larga muito mal abotoada. Os cabelos loiros e ondulados, presos com uma caneta preta num coque improvisado e um sambinha no pé enquanto preparava um risoto pra gente.

A cada mexida na panela, um rebolado. Ficou na ponta dos pés para pegar um tempero no armário de cima, fazendo a camisa levantar revelando sua bunda empinada e delicada. Jogou o tempero na panela, pegou a taça de vinho que estava ao lado do fogão, se virou pra mim e deu um gole sorrindo.

– Está quase pronto! – avisou.

– Não tenha pressa. A visão daqui está deliciosa.

Ela jogou a cabeça para trás sorrindo. Escorou a taça na pia e veio em minha direção. Eu estava sentado atrás da bancada de refeições observando-a cozinhar, tomando uma dose de Blue Label puro. O lugar que eu mais gostava daquele apartamento era ali, a cozinha. Claro que seria, afinal, aquele era o apartamento de uma chef de cozinha.

A cozinha preta com bancada em mármore italiano Nero Marquina e tampo de madeira rústica, a deixava com um ar sofisticado e moderno destacando os eletrodomésticos em inox. Os armários também eram em mármore e vidro preto, com puxadores em inox.

A sala integrada ao living quebrava o pretume da cozinha por conter apenas cores neutras: bege, branco gelo e madeiradas. O painel de madeira presente nas paredes do living e da sala de jantar camuflavam as portas que davam acesso a área de serviço e a área intima. Na sala de jantar, mesa com tampo de vidro branco, lustre Foscarini Big Bang empilhamento Stacking e espelhos bronze combinando com o painel amadeirado compunha o ambiente. Todos os tapetes do apartamento de fios de ceda branco. Tudo num requinte e bom gosto que nunca vi igual. Aline, além de chef, era metida a decoradora. Tudo o que pegava para fazer, tinha que ser de forma perfeita. Você poderia encontrar perfeitamente a descrição do apartamento dela nessas revistas de decoração.

Se colocou atrás de mim, me deu um abraço e sussurrou em meu ouvido:

– Isso é porque você não sabe o que estou pensando em fazer para a sobremesa.

Agarrei em seu braço e a joguei no meu colo, dando-lhe um beijo fervoroso.

– Pare Rick! O risoto vai queimar – disse sorrindo escapando de meus braços e voltou correndo para a panela – Liga o som pra gente – apontou o controle jogado no sofá da sala com a cabeça.

Suspirei.

Levantei, peguei o controle e assim que liguei, o rock sensual dos All Stranger saiu pelas caixas de som. Meu coração pulsou descontroladamente e desliguei o aparelho de imediato.

– O que foi? Não gosta de All Stranger? Amo a voz da Sol! Você sabe que ela é brasileira né?

– Aham – respondi lacônico.

– Além de linda é talentosa!

– Hum…

– Parece que o casamento dela e do Ryan, o guitarrista da banda, está marcado para o mês que vem. Eles são um fofos juntos, né? Parecem que se amam muito, afinal, construíram o sucesso juntos. Ele já era meio famoso antes mas…

– Line! Não quero saber! Esse assunto não me interessa! Nada que venha dessa banda me interessa! – falei mais ríspido do que queria.

Aline fechou a panela e me encarou assustada.

– Credo Rick! Desculpa! Só estava falando.

Bebi o resto do whisky e suspirei.

– Me desculpa! Eu…eu não gosto dessa banda.

– Tudo bem, eu não sabia! Mas sua reação foi meio exagerada não?

– É – bufei, – foi.

– Foi uma namorada antiga que te fez sofrer ao som de alguma música do All Stranger? – mordeu a parte de dentro da bochecha.

Sorri.

– Antes fosse.

Aline levantou as sobrancelhas.

– E…

– E o que?

– Não vai me contar o porquê desse ódio todo pela banda?

Revirei os olhos.

– Esquece isso!

– Vocês tinham uma música, era isso? Ou você cantava uma música da banda pra ela? Ou…

– Line, por favor… – esfreguei a barba impaciente. – Dá pra mudar de assunto?

– Está bem! – voltou a fitar as panelas.

O lugar ficou em absoluto silêncio a não ser pelo barulho da comida fervendo.

Esfreguei o rosto e suspirei.

Levantei e a abracei por trás.

– Não precisa ficar com ciúmes! É só uma história boba do passado que eu não quero ficar lembrando. Tudo bem?

– Uhum…

Ela estava brava. Toda vez que estava brava, soltava esse “uhum” com a boca fechada.

Dei um beijo na cabeça dela e me afastei. Ela teria que se contentar com isso. Se ficasse brava, paciência! Sol Fierce era um assunto que eu ainda não estava pronto para discutir a respeito.

Depois daquele dia na coletiva de imprensa, mais de dez meses atrás, nunca mais a vi. Notícias, apenas pelas mídias sociais. Ela finalizou sua turnê pelo Brasil. Todos os shows lotaram e parece que a fama da banda aumentou ainda mais. Nas bancas, só se via a foto deles. Na internet, só se falavam deles. Mesmo eu tentando fugir, era impossível deixar de encarar aqueles imensos olhos azuis da Sol.

Estavam em todo lugar.

Até na Sedina me pediam para eu cantar músicas deles. Eu, claro, nunca atendi a esses pedidos. Me recusava veementemente.

Tortura demais.

Depois daquele episódio frustrante de tentar trazê-la de volta pra mim e ela ter jogado na minha cara essa história de casamento com o Ryan, decidi tirar ela do meu coração. Pelo menos tentar. Talvez tudo aquilo fizesse sentido. Talvez a Sol por quem eu me apaixonei tivesse realmente ido embora e outra pessoa, tomado o seu lugar.

Anos e anos amargando o fato de tê-la deixado ir embora, tentando encontra-la a todo custo, buscando alternativas para me aproximar e quando finalmente a encontrei, ela deslizou por entre meus dedos como um monte de areia. Doía muito. Mas eu tinha que colocar na minha cabeça que talvez, ela estava de fato feliz com essa nova vida e que nela, não havia mais espaço pra mim. Eu tinha que seguir em frente. Ao menos…tentar seguir em frente.

Quatro meses depois conheci Aline. Ela estava na Sedina com um grupo de amigas e não parava de mexer comigo um segundo. Quando acabei de tocar, ela foi conversar comigo. Tomamos alguns drinques e fomos para o apê dela. Ela se apaixonou por mim. Eu…bem…eu gostava de ficar com ela. Já era um começo! Desde então estávamos juntos.

Aline era chef de um dos mais bem conceituados restaurantes de São Paulo. Para conseguir uma mesa, a reserva teria que ser feita no mínimo com um mês de antecedência. Saiu em revistas, já deu entrevistas em jornais. Era uma chef de grande renome.

O que ela viu em mim? Um hispter, meio músico, meio professor, que vivia uma vida modesta na zona leste de São Paulo, completamente apaixonada por uma musa do rock que o espremeu como um inseto repugnante na frente de um monte de gente. Essa parte, Aline não sabia. Minha história com Sol Fierce era minha e dela. Sobre aquele episódio decepcionante, apenas duas linhas no jornal: FÃ DESCONTROLADO INVADE COLETIVA DE IMPRENSA E SE DECLARA PARA SOL. RYAN EM ATO HEROICO, PROTEGE SUA MUSA SOCANDO O DESCONHECIDO E SEGURANÇAS O RETIRAM DO SALÃO.

Depois disso, muitas lágrimas, alguns quilos a menos e a tentativa de me reerguer. Modéstia parte, eu estava indo bem. Até virar a esquina e ver o rosto dela na banca de jornal, ou ligar a rádio e ouvir sua voz, ou olhar o Facebook e ver seus vídeos sendo compartilhados ou…tá legal! Minha tentativa de esquecer Solange Souza, ou melhor, Sol Fierce estava sendo um fracasso. Mas eu nunca me cansava de tentar…

Aquele sábado, Aline estava de folga e resolveu fazer uma comidinha para nós. Meu tempo era curto, pois eu tinha que entrar na Sedina às dez, mas ela insistiu. Assim que eu cheguei em seu apartamento, ela me despiu numa ansiedade de me ter que me deixou sem fôlego.

– Sou completamente louca por você! – disse entre um beijo e outro.

Fizemos amor no chão da sala.

Ela vestiu minha camisa e foi para a cozinha.

– Adoro seu cheiro – falou assim que a colocou.

Vesti minha calça jeans, coloquei meu coturno e fiquei sem camisa vendo-a cozinhar alegremente. Eu queria estar sentindo aquilo que Aline sentia. Queria estar feliz com ela, assim como ela parecia estar feliz comigo. Queria poder retribuir seu amor como merecia. Seus olhos cor de mel cintilavam afeição e carinho e por mais que eu lutasse para corresponder, eu não conseguia. Aquela maldita mulher assombrava meus pensamentos dia e noite e não tinha nada que eu pudesse fazer a não ser esperar. Esperar o tempo dar jeito nisso.

Comemos o risoto que estava perfeito como esperado. Aline tomou um banho rápido e fomos para a Sedina. Assim que cheguei, todos me cumprimentaram com satisfação e as mulheres soltaram elogios insinuantes. Aline segurou forte em minha mão, tentando passar autoridade.

– Essas meninas não se cansam? Sabem que você me pertence – suspirou contrariada.

Fiquei pensando naquela frase… “sabe que você me pertence”…pobre Aline, se ela soubesse…

Arrumei minha guitarra, verifiquei o som e me posicionei.

Aline sentou em uma mesa em frente ao palco fulminando com os olhos as garotas que se aproximavam.

Comecei a tocar e como de costume, a galera me recebeu de forma calorosa.

A noite foi maravilhosa! Toquei como nunca!

Já estava quase encerrando a noite, quando avistei ao fundo do pub aqueles olhos azuis destruidores, debaixo de um capuz de moletom. Cerrei os olhos para enxergar melhor e meu coração disparou.

Era ela.

Parei de tocar imediatamente e levantei do banco que eu estava sentado.

Ela se virou e começou a sair do lugar.

Desci do palco correndo.

– Rick, o que foi? – Aline me segurou pelo braço. – Aonde você vai?

Me desvencilhei dela e apertei o passo tentando não perder a mulher com o capuz de vista.

Sai do pub.

Tinha começado a chover. Olhei para um lado depois para o outro e avistei há alguns metros uma limusine preta parada. A mulher abriu a porta e deixou o capuz escorregar. Os cabelos pretos molhando com a chuva. Ela entrou no carro.

– Sol! – gritei.

A limusine arrancou e passou por mim. Tentei correr atrás inutilmente e soltei um grito de frustração.

– Merda! Merda! – coloquei as mãos na cabeça e comecei a chutar o ar.

Meus cabelos se soltaram do coque que eu costumava a fazer e grudou uma parte em meu rosto. A chuva aumentou. Eu ajoelhei no asfalto, no meio da rua olhando para a frente.

– Merda – sussurrei.

Raios riscavam o céu e um enorme estrondo de trovoada ecoou pela rua. A tempestade se tornou impetuosa e as gotas pesadas açoitavam minhas costas. Senti um toque em meu ombro e olhei para cima.

– Está na hora de me dizer quem é ela – Aline disse séria, a chuva molhando seu rosto sombrio como as nuvens.