Nosso Livro

Capítulo 10 – O Som do Amanhã

14, jan, 2017 Luana Leão

Capítulo 10

San Francisco, 14 de Julho de 2009

San Francisco Union Square – 10:00h

 

Demorei no banho porque eu estava apreciando os recentes acontecimentos. E aquele, era outro dia especial! O dia em que eu iria conhecer e cantar com os mais novos integrantes da banda. Isso mesmo! Eu fazia, agora, parte de uma banda. Tudo começou com um telefonema na praia. O dono da gravadora Music Company me chamou para bater um papo. Na verdade, ele chamou Luigi para bater um papo sobre mim. Saímos dessa conversa com a promessa de um contrato. Não solo, mas de uma banda de rock. Dá pra acreditar?

Desse dia em diante começamos a trabalhar minha imagem. O mercado necessitava de uma nova banda de rock e eu necessitava de um visual novo. Segundo Mattew, dono do pub Bad Things, eu parecia uma princesinha de conto de fadas.

– Não queremos nada de delicado em você, querida! Quero selvageria, cabelos negros, olhar revoltante. Vamos mudar, vamos fazer tatuagens, vamos…

– Tatuagens? Morro de medo de agulhas!

– Querida, você não entende! Sua voz não tem nada a ver com a sua imagem! Temos que mudar isso logo!

– Honey bee, Mattew tem razão. Você é muito…hum…como posso dizer…

– Enfadonha! – Mattew falou.

– Enfadonha? – perguntei confusa.

– É! Não me leve a mal, você é gorgeous, dear! Linda! Magnífica! Mas, você é um pouco tediosa na maneira como age! Sabe? Tipo, sem graça.

– Nossa! Quanta sinceridade! – falei sentindo meu rosto ruborizar de vergonha.

Luigi suspirou descrente.

– Você não leva jeito com as palavras, Mattew! Ela não é tediosa, ela é ótima, só precisa de um pouco de pimenta!

– Muita pimenta!

Luigi revirou os olhos.

– Sol, uma estrela do rock precisa de atitude! Precisa causar, tanto no modo de agir, como no modo de vestir.

– Hum…- coloquei a mão no queixo – então vocês querem que eu mude minha personalidade?

– Vamos começar com o seu visual. Depois adaptamos o resto – Mattew finalizou.

Lá estava eu, me encarando no espelho.

Meus olhos ficaram mais azuis com os cabelos pretos e escorridos. E as tatuagens, apesar da ideia ter me assustado, ficaram muito legais! Doeu pra burro, quase quebrei a mão do Luigi quando eu as estava fazendo, mas no final deu tudo certo. Nem todo mundo tem a coragem de fazer tantas tatuagens assim de uma vez. Mas se era pra sofrer, que fosse uma única vez!

Escutei um som vindo da sala. Uma música linda! Enquanto penteava os cabelos fiquei ouvindo-a.

Essa voz… essa voz não era estranha. Sai do banheiro.

– Esse cara não desiste! Merda! Ela não pode ver isso!

– O que foi Luigi?

Luigi fechou o computador imediatamente.

– Nada querida! Coisas do passado que teimam em assombrar o presente!

Curvei as sobrancelhas.

– Estava escutando uma música. Quem era o cantor, parece que me lembro dessa voz!

– Ninguém famoso. Um carinha aí sem carisma e tals. Esses vídeos bobos que a gente recebe do YouTube, sabe? Esquece isso! Vamos ao que interessa! Temos que colocar uma roupa maravilhosa em você! É seu primeiro contato com os novos integrantes da banda e a primeira impressão é a que fica!

– Estou super ansiosa.

– Eu também! Vocês devem cantar alguma coisa juntos hoje para o Mr. Clarck, o dono da gravadora, analisar a sintonia de vocês.

– Ai meu Deus Luigi! E se ele achar ruim, e se eu desafinar de tanto nervosismo, e se…

– E se você arrasar? E se todos se apaixonarem por você? E se vocês tiverem uma química maravilhosa? Honey bee, coloque apenas pensamentos positivos nessa sua cabecinha! – cutucou minha cabeça com o indicador.

– Você tem razão! Pessoas negativas reparam a profundidade do poço, pessoa positivas…

– Percebem o grande salto que irão dar – completou. – Isso! Sabedoria em pessoa! – bateu palmas.

Depois de algum tempo, nos direcionamos ao estúdio da gravadora. Ali era um dos “escritórios” da Music Company, ou seja, não era a pomposa matriz, onde milhares de cantores famosos circulavam o tempo inteiro, localizada em Nova York. Luigi havia me dito que a gravadora possuía pontos por todo os Estados Unidos e como os demais membros moravam em São Francisco, Mr. Clarck marcou o encontro para aquele escritório.

Quando entramos, fiquei admirada com o tamanho do lugar. Se aquele era apenas um “escritório”, imagina como seria a matriz. Uma mulher comprida e muita simpática nos levou até uma sala. Ao abrir a porta Ryan, Matt, Muller e Mr. Clarck nos olharam com curiosidade. Meu rosto fervilhou! Meu coração estava prestes a saltar pela boca.

Mr. Clarck se levantou.

– Darling! Welcome! Esses são…

– Ryan, Matt e Muller –  o interrompi – É um enorme prazer conhece-los!

Os olhos de Ryan me fuzilaram de tal maneira que fez todo o liquido do meu corpo secar. Ele se levantou, segurou em minha mão e deu um beijo nela. Todos os meus pelos se arrepiaram e o lugar onde ele beijou começou a formigar.

– Você é mais linda pessoalmente do que pelas fotos que Mr. Clarck nos enviou.

– Ah! Obrigada! – falei totalmente sem jeito. – Seu português é perfeito!

– Tenho em mim outras qualidades que você também irá adorar.

Nessa hora, exatamente nessa hora, eu me apaixonei por Ryan, apesar da minha cara ter ficado totalmente vermelha e eu quase desmaiar. Não me leve a mal, mas o cara já era famoso, lindo de morrer, e falava de um jeito tão sexy que cada palavra parecia arrebentar uma peça de roupa minha. No final de cada frase, eu me sentia nua. Me julguem.

– Todos nós falamos português. Fique tranquila! – piscou – Com exceção do Mr. Clarck, mas tenho certeza que seu inglês é fluente.

– Quase! Mas irá ficar!

Sentamos todos em uma sala espaçosa, com carpetes cinzas e vários CDs emoldurados de diversas bandas famosas grudados na parede. Autógrafos da Madona, Elvis, Rian May, Freddie Mercury, John Deacon, Roger Taylor e tantos outros também estava perfeitamente grudados na parede em suas molduras de vidro.

Ficamos conversando durante um tempo até Mr. Clarck nos convidar para ir até a sala de gravação para fazer um teste. Entramos no estúdio coberto por um carpete vermelho. A frente os equipamentos de gravação e manipulação do som:  sequenciador por computador, microfones condensadores, mesa de som, sistema de amplificação, processadores de efeitos sonoros, microcomputadores. Infinitos botões destinados a difusão sonora, controle de obtenção de um baixo nível de reflexões, reverberação adequada, e mais um milhão de coisas que Luigi me explicou bem rapidamente.

Um enorme vidro separava a sala de controles da sala destinada à execução dos músicos. Lá estavam os instrumentos mais modernos que eu já havia visto e com certeza os mais caros. Entramos pela porta na lateral da enorme mesa.

– Vamos fazer um teste de química! O que preferem cantar? – perguntou Mr. Clarck com seu inglês arrastado e cantarolado. Quase perguntei se ele era do Texas.

– Escolha você Sol – Ryan sorriu com carisma.

– Hum, que tal Skies on Fire AC/DC?

– Uau! AC/DC hein? Ok! – Ryan sorriu com o canto da boca.

– Bom, minha voz é totalmente diferente à do Brian, mas do meu jeito, essa música também fica legal!

– Qual o tom?

– Tocaremos no mesmo. Siga a risca.

– Ok! Vamos lá! – bateu as mãos e todos foram para os seus respectivos instrumentos.

Muller encarou um por um antes de bater três vezes a palheta uma contra a outra e o som começou. Alguns minutos depois o último acorde foi dado e o espaço ficou totalmente em silêncio.

Mr. Clarck ficou nos observando do outro lado do vidro com a boca entreaberta.

Ninguém disse uma só palavra o que parecia a duração do filme “A Lista de Schindler”, ou seja, uma eternidade. Encarei Mr. Clarck e Luigi, que estava sentado ao seu lado.

Nada.

Nem um sussurro sequer. Depois lentamente girei meu pescoço para trás a fim de encarar os meninos.

– E então? – minha voz saiu trêmula.

– Puta que pariu – Matt finalmente se manifestou, balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Isso foi, isso foi… – Muller levantou as palhetas para cima.

– ANIMAL – Ryan gritou.

E então tudo virou um alvoroço só. Risadas, assovios, gritos. Mr. Clarck se levantou, puxou Luigi que estava ao seu lado e lhe deu um beijo no rosto com um sorriso de orelha a orelha.

Luigi coçou a cabeça encabulado.

– Essa banda é uma mina de dinheiro! – ele falou através de um dos microfones instalado na enorme mesa de comando.

– Arrasou meu anjo! – Ryan me puxou pelo braço e me abraçou – Seremos um sucesso – falou em meu ouvido – E… eu e você, meu anjo, eu e você vamos ser igual faísca na gasolina. Vamos ser um estouro. Fogo para todo lado!

Meu corpo estremeceu e o que mais eu queria naquele momento era enfiar minha língua dentro da boca daquele homem maravilhoso.

– Vamos começar a trabalhar na divulgação – Mr. Clarck falou empolgado. – Já tenho algumas letras selecionadas para vocês. Vamos começar a trabalhar nelas! Vamos trabalhar muito! Essa é a coisa mais doida do mundo. Vocês irão ter mais fama do que podem imaginar.

– Isso é tudo muito estranho pra mim. Mas tenho certeza que irei acostumar – falei com um sorriso rasgando minhas bochechas.

– Isso! – Mr. Clarck bateu palmas – É isso! Esse será o nome da banda!

– Qual?

– All Stranger!