Nosso Livro

Capítulo 11 – O Som do Amanhã

20, jan, 2017 Luana Leão

Capítulo 11

São Paulo, 16 de Março de 2014

Oscar Freire – 10:00h

 

– Tudo lindo, lindo, maravilhoso! Amei as roupas! Obrigada! Amei a decoração! A coleção será um sucesso! Já coloquei no meu Instagram! Fiz um twitter também! – falei com excessiva empolgação e olhos injetados, uma palavra atrás da outra, sem intervalo.

– O que ela tomou? – ouvi Luigi perguntando discretamente para Ryan.

– Não faço ideia! Quando acordei, ela já estava assim – deu de ombros.

– Meu Deus! Só espero que ela não faça nenhuma besteira. A marca Animale pagou uma fortuna para vocês estarem aqui por quarenta minutos.

– E o casal Ryan e Sol novamente bombando nas paradas… – Ryan sorriu com satisfação e fez uma dancinha comemorativa.

– Sim! Isso se a Sol não estragar tudo novamente! – Luigi suspirou.

O sorriso de Ryan desvaneceu quase que imediatamente.

Ryan se aproximou de mim de forma precatada.

– Não vou estragar nada! – o abracei e falei em seu ouvido.

– Está forçada demais, Sol! Maneire na entonação das frases! Tá dando pinta que encheu o cu de droga…

– Não foi meu cu que enchi de drogas – dei uma risada alta.

Luigi se aproximou.

– Apenas sorria e acene, Sol – disse com os dentes travados, sorrindo forçadamente.

A organizadora do evento nos encaminhou para uma mesa de vidro ao canto.

Enquanto Ryan e eu autografávamos os catálogos da nova coleção, os fotógrafos registravam cada passo. Um amontoado de fãs se empurravam do lado de fora da loja, fazendo de tudo para conseguir ao menos um vislumbre de nossas silhuetas pelo espelho da vitrine. O coquetel era destinado apenas para a imprensa e alguns poucos convidados e a segurança foi devidamente reforçada em toda a avenida e ao redor do complexo de onde estávamos.

Minha perna não parava quieta. Eu a balançava o tempo todo. Já não estava mais aguentando ficar sentada naquela mesa. Minha mão já estava doendo de tanto escrever meu nome.

– Cansei! – me levantei.

Ryan puxou meu braço me fazendo emborcar e sentar de volta na cadeira.

– Por Deus, Sol! Termine de assinar esses catálogos – disse baixo porém ríspido.

A organizadora do coquetel se aproximou.

– Algum problema senhorita Sol?

– Sim, poderia fazer a gentileza de encher um copo com vodca pura, por favor.

– Hum…ok…mas são dez e quinze da manhã.

– Minha querida, eu não te perguntei as horas, pedi apenas que me sirva uma bebida decente ao invés desse chá horroroso – levantei a caneca que estava em cima da mesa.

– Sol – Luigi me repreendeu.

– Faça o seguinte, leve esta caneca e coloque a vodca dentro. Todos irão achar que estou bebendo chá.

A mulher concordou um tanto chocada e pegou a caneca.

– Aguente só mais alguns minutos! Não vá me fazer um escândalo aqui! – novamente Luigi disse entre os dentes.

Revirei os olhos.

A mulher trouxe minha xícara de volta com a vodca dentro.

– Agora sim! Obrigada meu anjo!

Tomei tudo num gole só!

– Outro por favor!

– Sol, não acho que…

Antes que Ryan pudesse acabar o que ia dizendo, me levantei!

Os fotógrafos não paravam um minuto. Andei pela loja, cumprimentei convidado por convidado. Tirei selfies com quem pediu. Estava sendo simpática. Não sei porquê Luigi se preocupava tanto. Minha caneca voltou cheia e novamente bebi tudo num gole só. Comecei a rir de tudo. Alguém espirrava, eu ria, alguém me elogiava, eu ria, alguém me encarava, eu ria.

O tempo acabou e Luigi nos retirou finalmente de lá!

– Viu? Me comportei direitinho.

– Aham…mas uma caneca de vodca e não sei do que mais você iria rir.

– Nossa Luigi como você é amargo! Eu só estava sorrindo!

– Tudo bem Sol, acho que ninguém percebeu que estava…bêbada? Drogada? Que seja… apesar da alegria exacerbada nada habitual. Agora temos que correr para a conferência no Gran Estanplaza Berrini. Vamos falar sobre o novo DVD que está sendo gravado durante a turnê.

Chegando ao hotel, suspirei de tédio ao notar a mesa comprida à minha espera. Muller e Matt já estavam posicionados. Quando entramos no espaço, a miríade de flashes deixou o salão ainda mais iluminado.

– Vinte minutos para as perguntas – anunciou uma voz vindo de não sei onde.

– Sol, por que decidiram gravar o novo DVD no Brasil?

– Sou daqui! Apesar de ter sido lançada lá fora. Não ter ao menos um DVD gravado em meu país me parece um crime – respondi inerte

Acenei para um rapaz com o uniforme do hotel que estava no final da imensa mesa. Ele se aproximou e falei em seu ouvido.

– Me traga um copo com vodca, por favor.

Ele assentiu e saiu.

Outro repórter estendeu a mão. Luigi acenou em sua direção.

– Pretende voltar a morar aqui um dia, Sol?

– Não.

– Próxima pergunta – Luigi disse ao microfone.

Minha vodca chegou e bebi com a determinação de um medalhista olímpico. Alguns repórteres fizeram perguntas para Ryan, Matt e Muller. Fiquei encarando o tecido escuro que cobria a mesa enquanto minha cabeça fervilhava de pensamentos fora dali. Olhei para o copo em minha frente. Onze horas da manhã e se fizessem um exame toxicológico em mim, ficariam perplexos com o que iriam encontrar.

Suspirei e afastei o copo.

– Próxima pergunta.

– Sol, você acha que o amor tem o poder de unir novamente duas pessoas que tomaram rumos tão diferentes na vida?

A voz embargada de emoção chamou minha atenção. Ergui minha cabeça e exprimi os olhos tentando enxergar qual foi o repórter que havia feito aquela pergunta e assim que avistei, meu rosto perdeu a cor.

Ricardo.

“O que ele estava fazendo ali? Como conseguiu credencial de repórter? O que? Como foi que…”

– Pode responder? – ele insistiu.

Respirei fundo tentando controlar meu nervosismo. Luigi olhou com mais cautela para o suposto repórter e se contorceu na cadeira quando percebeu que era Ricardo.

– Eu…bom…essa pergunta é um pouco capciosa. Não existe uma resposta correta. Acho que isso depende muito de cada situação.

– Próxima pergun…

– Se fosse você nessa situação? Se depois de um longo tempo, voltasse a encontrar alguém por quem teve um grande sentimento e percebeu que apesar do tempo, ele não se apagou – Ricardo continuou, – você se daria uma oportunidade de viver novamente esse sentimento?

– Apenas uma pergunta por pessoa – Luigi falou ao microfone.

– Não, tudo bem Luigi – falei sem desviar os olhos de Ricardo – Minha vida é lotada de compromissos. Compromissos com a mídia, com meus fãs. Não tenho tempo para historinhas de contos de fada.

– Não acha que você paga um alto preço pela fama?

– Mas o que é isso? – Luigi se levantou – Alguém poderia…

– Cantar para o mundo sempre foi meu maior sonho. Viver da música, não ter vergonha do meu dom e…

– Abdicar da sua vida em prol disso também era um sonho?

Nessa hora todos os repórteres olharam para Ricardo e começaram a tirar fotos dele e a gravar o que estava acontecendo.

– Não estou abdicando da minha vida…eu…

– Está desistindo de você, das pessoas que ama em prol da fama. Está se deixando levar por uma vida desregrada, cheia de vícios e alta pressão. Sua carreira está levando sua vida com ela e você nem sequer se deu conta disso.

– As pessoas que eu amo estão perto de mim o tempo todo e todo artista lida com uma agenda apertada e muitos compromissos. Isso faz parte e eu já me acostumei. Demorei muito a conquistar a admiração de todos – falei depressa e exaltada. –  Nunca mais vou voltar a ser aquela garota ridicularizada por todos. Nunca mais vou me deixar ser humilhada! Minha vida começou a partir do momento em que eu entrei no All Stranger e tudo que ficou para trás, lá vai ficar!  – gritei.

Nessa hora o salão ficou em silêncio. Somente se ouvia o click das máquinas fotográficas e ruídos das câmeras. Todos nos fitavam curiosos inclusive o pessoal da banda que não mexiam nem um só músculo do corpo, atônitos.

Ricardo passou a mão na barba e fechou os olhos verdes escuros por alguns segundos.

– Então é disso que você tem medo – falou esmorecido. – Você se escondeu atrás da sua banda, dessa roqueira badalada para fugir do que você é de verdade?

– Essa agora, sou eu de verdade – estufei o peito e falei com convicção.

Um segurança se aproximou de Ricardo.

– Me acompanhe por favor…

– Você tem que acordar de uma vez por todas, Sol. Está acabando com a sua vida. Acorde, antes que seja tarde. Ainda dá tempo, dá tempo de viver o que podia ter vivido.

O segurança segurou no braço de Ricardo. Eu me levantei.

– O que eu podia ter vivido? O que eu podia ter vivido? Você é a droga de um babaca mesmo.

– Quem é ele? – interrogou um rapaz em voz alta.

– Não é aquele garoto que ganhou o concurso? – comentou uma outra pessoa.

A junção estrepita de pessoas tumultuou novamente o lugar.

– Se correr atrás de quem eu amo me faz um grande babaca, que seja! Eu sou um babaca! Agora quanto a você…pare de fingir Sol! Para de fingir ser uma pessoa que você não é! – disse numa mistura de raiva e rancor.

– Tire ele logo daqui! – Luigi gritou.

Ryan se levantou também.

– Sai daqui seu merda! Qual é a sua? – berrou indignado.

– E se afaste dele – Ricardo apontou para Ryan. – Esse cara só está te ajudando a se afundar ainda mais.

Ryan saiu da mesa às pressas rumo à Ricardo.

Os flashes estavam em polvorosa situação.

Mais seguranças chegaram e começaram a afastar Ricardo a força.

Ryan se aproximou de Ricardo e segurou em sua camiseta.

– Nunca mais chegue perto dela ou vai se arrepender.

– Você é o culpado dela estar assim. Você a levou para o mesmo buraco em que estava – Ricardo cuspiu as palavras com ódio.

Ryan deu um soco nele.

Ricardo caiu no chão e os seguranças tentaram conter Ryan.

– Saia daqui – ele gritou – Antes que eu te mate de tanta porrada!

Coloquei as mãos na boca e sai correndo em direção ao conflito.

– Soltem ele. Soltem ele agora – gritei para os homens que arrastavam Ricardo no chão.

Os seguranças me olharam confusos e soltaram Ricardo. Segurei em sua mão e o ajudei a levantar. Rick ajeitou sua camisa, que agora estava rasgada e limpou o sangue da boca com as costas da mão.

Ryan se contorceu nos braços dos quatro homens que o seguravam.

– Vaza daqui! – berrou.

Ricardo fitou Ryan depois a mim.

– Estou tentando te trazer de volta – falou suplicante.

– Por favor, não tente mais – passei a mão em seu rosto.

– Eu te amo! – a voz de Ricardo estava impregnada de desespero.

As lágrimas encheram meus olhos e eu lutei para não deixa-las escorrer em meu rosto.

“Eu também te amo”.

Ryan se soltou dos seguranças e se preparava para avançar em Ricardo novamente.

– Vou me casar com Ryan – sussurrei.

– O que disse? – um senhor logo ao meu lado perguntou.

– Vou me casar com Ryan – falei em alto e bom som olhando para todos os repórteres do salão.

Nessa hora, Ryan parou de se aproximar de Ricardo e me olhou surpreso.

– Vou me casar com Ryan ainda esse ano – continuei alto.

– Vocês vão se casar mesmo? – um repórter perguntou.

– Quando será o casamento Sol? – indagou o outro.

– Será o casamento do ano! – um terceiro disse eufórico.

– Sinto muito – balbuciei para Ricardo, virei as costas e me direcionei de volta a mesa.

Uma avalanche de perguntas começaram a surgir e o foco foi tirado de Ricardo. Ryan fuzilou Ricardo com os olhos e me acompanhou de volta a mesa.

– Calma pessoal! A Sol irá responder todas as perguntas! Um de cada vez – Luigi tentou controlar a enxurradas de indagações.

Ricardo me olhou alquebrado, balançando a cabeça em negativa e foi afastado gentilmente pelos seguranças.

Ryan me abraçou e deu um beijo em minha testa.

– Sol e eu nos amamos muito – falou no microfone. –  Esse carinha aí quis ter seu minuto de fama! Tem fãs que não sabem se controlar e arrumam cada jeito de…bom…deixa pra lá! Agora vamos tratar do que interessa! Da nossa turnê e do nosso amor! – sorriu e levantou minha mão para o alto.

Todos aplaudiram e sorriram animados.

Olhei para a porta de saída do salão e ainda consegui ver Ricardo arrastando seus cacos para fora dali.

“Adeus meu amor. Eu sinto muito.”

Os pensamentos me levaram à nossa segunda faixa do DVD acompanhada de um estrépito acorde de guitarra:

 

Por um momento achei que iria encontrar

Tudo aquilo que lutei para esquecer

Escuridão, dor, sinto-me rasgar

A decepção do que é sempre perder

 

Cuspi fora toda a ingratidão

Fiz de mim fortaleza, ventania, tempestade

Nada em mim é menos que um vulcão

Mix de estações, sirva-se a vontade

 

Encontrei um outro alguém em mim

Escondido nas profundezas, me fazendo mudar

Alma pura, inocente, aquelas bobagens enfim

Saíram fora, deram o pé, ateei fogo em seu lugar

 

Como um ventríloquo balanço a cabeça

O som que sai da boca já não mais sou eu

Não conduzo meus movimentos, não se esqueça

Boneco de cordas, amordaçada…Quer saber? Nem doeu.

 

Como um ventríloquo balanço a cabeça

O som que sai da boca já não mais sou eu

Não conduzo meus movimentos, não se esqueça

Boneco de cordas, amordaçada…Quer saber? Nem doeu.