Nosso Livro

Capítulo 09 – O Som do Amanhã

07, jan, 2017 Luana Leão

Capítulo 9

São Paulo, 15 de Março de 2014.

Sedina Pub – 22:00h

 

Coloquei uma calça jeans, deixei os cabelos soltos e fiz uma maquiagem básica. Joguei um moleton preto por cima da blusinha branca gola V que usava e vesti o capuz. Tênis all star completavam o look. Queria passar despercebida. Olhava o tempo todo para o chão. Sentei-me em uma mesa no fundo, no lugar mais escuro possível.

Sedina Pub era um ambiente fechado e esfumaçado, repleto de indivíduos andrógenos ziguezagueando por todo o espaço. Mulheres encarando homens de forma hostil. Homens retribuindo seus olhares com um inefável tédio. As mesas de madeira de lei apinhada de bebidas comportavam pessoas de todos os tipos e gêneros. Uns sorriam e conversavam animadamente, outros se agarravam efusivamente. Uns dançavam o rock timidamente, outros balançavam suas cabeleiras de forma colérica. Observando o lugar com mais assiduidade, nada ali era interessante. Alugaram um enorme galpão, espalharam mesas e cadeiras de madeira com estofado acinzentado, montaram um palco ao fundo e lotaram de pessoas.

O que eu fazia ali?

Por vezes me peguei levantando para sair correndo. Mas alguma coisa me agrilhoava naquele lugar abafadiço e sem graça. O garçom trouxe o couvert.

– O que gostaria de beber?  – falou descorçoado.

– Bourbon. Puro, sem gelo.

O Garçom espremeu os olhos.

– Desculpe, mas eu te conheço de algum lugar?

– Improvável – falei um tanto nervosa – é meu primeiro dia na cidade.

Ele deu de ombros, bufou e saiu.

Suspirei aliviada. A última coisa que eu queria era ser reconhecida.

Toda vez que passava alguém perto eu abaixava a cabeça e enfiava o celular no meio da cara.

– Boa noite – uma voz vindo do palco há uns metros de distância se pronunciou – Obrigado pela presença de todos. Espero que curtam a noite.

Aquela voz me fez lembrar o motivo pelo qual eu não conseguia ir embora.

– Manda vê Rick! – uma mulher gritou logo atrás de mim.

– Gostoso – outra disparou ao meu lado.

Do palco, Ricardo sorriu e começou a tocar a guitarra.

– Me traga outro – falei para o garçom assim que ele deixou a bebida em minha mesa.

Ricardo começou a cantar “November Rain”. Ele era como eu, gostava das antigas.

Eu o fitava sem parar. A cada verso cantado, uma lembrança açoitava meus pensamentos. O que eu vivi ao seu lado, o que eu perdi fugindo dele.

Sua voz se encaixava perfeitamente com a melodia. Ele fechava os olhos e balançava suavemente a cabeça. Me lembrei de quando ele ainda tinha seus 17 anos e cantava para mim, ensaiando para seus pequenos shows. Ele tinha a mania de morder a parte de dentro da bochecha e deixar a boca entreaberta toda vez que tocava guitarra. Eu achava aquilo tão sexy. Pelo visto, ainda carregava a mesma mania. Meu coração foi parar na garganta.

Ao final da música todos aplaudiram.

– Obrigado!

Logo começou outra.

Lithium, Nirvana.

Nessa hora todo mundo se levantou e começou a dançar. Eu já não conseguia mais vê-lo. Fui obrigada a me levantar também, mas mesmo assim não enxergava o palco. Comecei a me deslocar, me espremendo entre as pessoas, buscando um lugar que me desse alguma visão de Ricardo. Quando dei por mim estava em frente ao palco.

Rick cantava de forma enervante as últimas frases da música. Meus olhos não desviavam de sua boca. A aglomeração de gente me empurrava mais e mais para frente, quando uma menina totalmente bêbada esbarrou em mim fazendo-me emborcar sobre o palco. Os olhos de Rick se depararam com os meus. O último acorde foi dado e todos aplaudiram eufóricos.

Ricardo abriu a boca chocado com a minha presença. Comecei a me afastar, dando passos para trás até outra garota tropeçar e se apoiar em mim, puxando o capuz de minha cabeça.

– Desculpe-me eu…Sol? Sol Fierce? – falou empolgada.

– Não, eu…

– Olha gente, é a Sol. Do All Stranger – falou um rapaz ao meu lado.

Quando olhei para trás estavam todos me encarando e se aproximando de mim.

– Tire uma foto comigo – um mulher me puxou.

– Eu te amo Sol – um rapaz pegou em minha mão.

Eu fiquei aflita. Em menos de um minuto lá estava eu em meio a sebe, tentando me desvencilhar dos apertos e avanços descontrolados. Por onde eu olhava, pessoas se enroscavam em mim. Mal eu conseguia respirar tamanha quantidade de gente me abraçando e me empurrando.

– Espere! Eu…me deixem passar. Por favor, estão me machucando.

Minha voz era aterradora, mas não alta suficiente para se sobrepor ao estridente barulho. Quando meu medo se assomava na escuridão, senti um puxão ainda mais forte em meu braço.

– Venha – o rosto de Ricardo surgiu no meio a tantos outros.

Ele segurou firme em minha mão e saímos pelas portas do fundo apressadamente.

– Entre – abriu a porta de seu Honda City e praticamente me empurrou para dentro.

As pessoas nos seguiram para fora do pub e já estavam tirando diversas fotos e fazendo vídeos. Ricardo buzinou para que elas saíssem da frente e arrancou.

Há alguns quilômetros de distância do lugar, eu ainda ofegava.

– Está tudo bem? – olhou pra mim preocupado.

– Eu…Sim! Acho que sim! Desculpe-me, eu não queria ter estragado o seu show novamente. Eu…

– Sol! Pare! – me interrompeu impaciente.

Permanecemos em silêncio até Ricardo entrar na garagem de um prédio na zona leste de São Paulo. Subimos até o nono andar.

– Entre. É aqui que me escondo. Fique à vontade!

A kitnet era simples, mas me trazia uma sensação de casa que eu não conseguia descrever. Assim que entrávamos, dávamos direto para a pequena cozinha, composta por uma geladeira, um fogão quatro bocas e um armário amarelado. Um pouco mais ao fundo, um varal de teto comportava algumas roupas penduradas. Andei alguns passos e consegui enxergar a máquina de lavar e um tanque logo atrás. Um balcão de mármore separava a cozinha da sala. Na sala, um sofá dois lugares, um raque com uma TV 42 polegadas logo a frente e uma mesinha de acrílico na lateral para duas pessoas. Adiante, uma porta dava acesso ao quarto.

– Posso usar o banheiro?

– Claro! Fica ali no quarto – apontou.

Na suíte tinha apenas uma cama espaçosa e um armário branco de três portas. Os instrumentos de Rick estavam espalhados por todos os cantos. Guitarra, violão, partituras por todo o piso de madeira riscado. Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Respirei fundo. Abri a torneira e joguei um pouco de água no rosto. Enxuguei e sai.

– Toma – me deu uma garrafa de Bohemia – Sente-se – indicou o sofá com a cabeça.

Peguei a garrafa de suas mãos, dei um longo gole na cerveja e me sentei. Rick sentou-se ao meu lado.

Ele me olhava curioso.

Eu não sabia o que dizer. Então falei a primeira coisa que me veio na cabeça.

– Legal seu apê.

– Bom, ele não é meu. Eu alugo, mas eu também gosto.

– É bem legal e confortável e…

– Sol, porque foi me ver essa noite?

Fechei os lábios formando uma linha reta e olhei para o chão.

– Achei que estivesse no Rio – ele continuou.

– Eu estava.

– Vi uma notícia falando que o show lotou.

Sorri. Os ingressos estavam esgotados em menos de quarenta minutos assim que a bilheteria fora aberta. Um recorde para a banda!

– Sim! Foi excelente! Voltei ontem. A banda ainda está no Rio. Eu disse que queria ficar um pouco com meus pais antes de irmos para Porto Alegre onde será o próximo show. Temos campanhas para fazer e vídeos para gravar, enfim, devemos ficar aqui no Brasil por algum tempo, mas mal consigo vê-los por conta da agenda lotada.

– Hum… entendo! Ficar longe não deve ser fácil.

– Eu me acostumei. Mas a verdade, é que eu queria…

Rick levantou as sobrancelhas…

– Queria…

– Queria te ver novamente.

Ricardo não sorriu e eu não consegui identificar a expressão de seus olhos.

– Por que?

– Porque eu…bem…acho que fui muito rude com você naquele dia e…apenas…Rick eu…

– Pare!  –  me interrompeu enfurecido.

O encarei atônita.

– Vou perguntar novamente. Por que veio me ver?

Demorei alguns minutos para responder.

– Porque você é um assunto inacabado. Na verdade, eu achava que já tinha resolvido, mas depois que te vi, percebi que não. Ainda temos muita coisa a dizer um para o outro.

Ricardo analisou minha resposta. Deu um gole na cerveja com as sobrancelhas curvadas para baixo, expressão de poucos amigos.

– Eu não iria te procurar mais – enfim falou –  Não queria que pensasse que estava atrás de você por causa de sua fama como seu empresário disse.

Suspirei.

– Luigi é um grande amigo. Ele só estava querendo me proteger.

– Proteger de mim? – disse álgido.

Suspirei.

– Não! De mim mesma.

Ricardo entreabriu a boca.

Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro.

– Ahhhhhhhhhh! – esbravejou e lançou a garrafa contra a parede fazendo-a quebrar em muitos pedaços. O liquido espirrou em todos os cantos.

Arregalei os olhos e todos os músculos do meu corpo se tencionaram.

Ricardo murmurou algo inteligível e sentou na beirada do raque de frente a mim. Esfregou o rosto e me encarou. Eu…ainda paralisada.

– Aquela noite…Sol, aquela noite que te beijei, estava disposto a te pedir em namoro. Eu não sei porque raio eu disse aquilo para o Rodrigo, meu companheiro de banda. Acho que foi por vergonha, medo, sei lá. Fui muito covarde, Sol. Eu gostava de você e nunca disse nada justamente por causa…por causa…

– Do meu peso.

Ricardo bufou.

– Eu te achava linda, do jeito que você era. E fui um maldito covarde por não te dizer isso.

Meus olhos ficaram marejados.

– Você…você gostava…gostava mesmo de mim?

– Desde quando éramos crianças.

– Não consigo entender Rick – me levantei – Porque me fez pensar todos aqueles anos que o que sentia por mim era nada mais do que uma grande amizade?

Ricardo se levantou também.

– Mesmo? Será mesmo que eu nunca mostrei para você o que eu sentia?

– Não! Você sempre me olhava com piedade.

– Por Deus Sol! Piedade? Você se alto denegria o tempo todo. Vivia elogiando aquelas meninas esqueléticas e vazias. Sempre que eu me aproximava, você se fechava. Por fim, eu segui em frente. Fui tocando a vida. Mas nunca quis te deixar longe de mim. Nunca reparou isso? – passou as mãos nos cabelos presos naquele mesmo coque de antes, liberando algumas mechas – eu te amava e não conseguia te mostrar. Eu não conseguia te alcançar! Você se auto bloqueava! Se achava desprezível demais para receber meu amor.

Uma lágrima caiu de meus olhos. Depois outra, e outra. Depois comecei a rir. Uma eufórica crise de risos em meio à uma enxurrada de lágrimas.

– Você está querendo me culpar? – falei mais alto que pretendia – É isso?

– Não. Acabei de dizer que fui covarde por não ter aberto o jogo com você. Talvez se eu tivesse deixado claro meus sentimentos, as coisas poderiam ter sido diferentes.

– Diferentes? Ricardo, tudo teria sido diferente, PORRA – gritei. – Não me venha com essa agora. Confesso que eu sentia vergonha de mim, mas você também sentia. Eu servia para ser a amiga, que estava sempre do seu lado, torcendo por você. Mas jamais serviria para namorar você.

– Eu a queria sempre por perto.

– Porque como amiga, ninguém ligava. Ninguém iria encher seu saco por ser amigo de uma gordinha. Mas namorar, aí seria uma situação completamente diferente. Não é verdade? – gritei ainda mais alto.

– Sol…

– Seja homem pelo menos uma vez na vida e confesse! – berrei.

– Sol…

– Você tinha medo das críticas que ia receber! Dos comentários maliciosos! Você tinha medo de enfrentar o mesmo que eu enfrentava, não é verdade?

– É VERDADE! É A MAIS PURA VERDADE, SOLANGE!  – Ricardo urrou.

Nos encaramos. Os dois destilando raiva. Mas não um do outro, mas de nós mesmos.

– E…– esfregou a barba – e eu só percebi a burrada que eu fiz quando você foi embora.

– Ou quando eu fiquei famosa? – falei seviciada.

Ricardo fechou a mão e cerrou os dentes.

Entrou para o quarto e voltou com um notebook.

Abriu a tela violentamente e começou a digitar alguma coisa. Pouco tempo depois sua voz começou a sair, junto com o violão pelos áudios do computador.

 

Você me conheceu

Quando eu mais precisava

Um garoto franzino e acuado

Perdido nessa estrada

 

Você me amou e cuido de mim

Pelo seu olhar, me apaixonei

O mundo inteiro eu tinha que enfrentar

Mas pelo medo e covardia, eu recuei.

 

O Sol da minha vida eu deixei se apagar

Caminhos diferentes do meu, se pôs a andar

Na escuridão profunda, olha só onde fiquei

Agora nem sei quem eu sou, me acovardei

 

O Sol da minha vida eu deixei se apagar

Caminhos diferentes do meu, se pôs a andar

Na escuridão profunda, olha só onde fiquei

Agora nem sei o que sou, me acovardei.

 

O violão parou e ouvi um suspiro ainda vindo do computador.

Me perdoa Sol. Me perdoe por tê-la deixado ir. Se eu pudesse fazer um único pedido, seria para você voltar. Voltar pra mim. Onde você está? Espero que esse vídeo chegue até você. Espero que você ouça minha súplica. Espero que sinta meu amor. Te amo Solange Souza. Estou te esperando!

Eu olhava para o notebook.

– O que é isso?

– Postei no YouTube dois dias depois que sua mãe me avisou que estava fora do país. Olhe a data da postagem – aproximou o computador de mim – Veja! E veja também as outras 30 músicas que fiz para você depois dessa. Estão todas aqui! Olhe!

Ficou com o braço estendido segurando o note.

– Mas não venha falar que passei a te amar por causa de sua fama, ou por conta desse novo visual que adotou, porque isso é sórdido demais. Eu fui atrás de você! Muito antes de você se quer ter gravado uma única música! Sem antes de você ter um vídeo, um nada! Eu fui atrás de você quando ainda era Solange Souza e não Sol Fierce. Posso ter sido um covarde, mas não sou um interesseiro. Acho que você não sabe bem quem eu sou. Ou essa fama que tanto cultua a transformou numa pessoa totalmente vazia, como aquelas meninas que você admirava! – esbravejou.

Ricardo soltou o computador no sofá e foi para o quarto.

Eu fiquei ali, absorvendo aquelas informações, olhando para o computador, totalmente compungida. Alguns minutos depois, entrei no quarto. Ricardo estava sentado no chão, com as costas apoiadas na cama, cotovelos em cima dos joelhos e mãos na cabeça olhando para o chão.

Sentei ao seu lado.

– O que aconteceu durante esse tempo que eu estive fora? – sussurrei.

Ricardo suspirou e olhou para a frente, encarando a parede. Arrumou o cabelo, reagrupando as mechas que haviam se soltado de volta ao coque.

– Segui em frente. Não rolou nada demais. Eu me formei em Música e continuei naquele pub que toquei pela primeira vez. Acabei brigando com um cara da banda e decidi sair e seguir sozinho. Toquei em vários bares até que o Luan, dono da Sedina me contratou para tocar todos os finais de semana lá. De segunda a sexta, dou aulas de violão e guitarra em uma escola de música aqui perto. E essa é a minha emocionante vida!

– Me parece espetacular – falei sincera.

– Me sustenta e me realiza. As aulas me sustentam, tocar na Sedina me realiza.

– E você está namorando ou algo assim?

Ricardo respirou pesarosamente.

– Terminei a pouco tempo.

– Por que?

– Por que quer saber isso agora, Sol?

– Quero saber mais sobre sua vida. O que eu…perdi.

– Hum…ela não gostava de me ver tocando no pub. As meninas, você sabe como é…as meninas caem de cima e ela ficava enciumada. Queria que eu largasse.

– Mas a música é você!

– Justamente. Então decidi terminar.

– Fez a coisa certa. Uma pessoa não pode querer mudar a sua essência.

– Como Ryan fez com você?

Cerrei a boca.

– Ryan não mudou a minha essência. Foi um conjunto de situações. Pressão além do que eu podia aguentar. Você não faz ideia do que se passa por trás da fama. É algo maravilhoso e terrível ao mesmo tempo.

– Mas ele ajudou.

– Talvez.

– E mesmo assim você voltou com ele.

– Rick, Ryan e eu…

Nessa hora meu celular vibrou. Eu olhei na tela e era Luigi.

– Desculpa! Preciso atender.

Rick concordou com a cabeça.

– Oi Luigi! – me levantei.

– Para a casa de seus pais? Você queria ir para a casa de seus pais?

– Luigi…

– Sol, suas fotos já estão na internet! Sol Fierce aparece num pub em São Paulo. Você foi atrás dele né? Ricardo? Você é oficialmente a namorada do Ryan. Não me vá fazer uma besteira.

– Calma! Não estou fazendo nada! Fique tranquilo!

– Viemos todos para São Paulo. Estamos no Unique! Pegue um taxi de onde quer que esteja e venha para cá! Agora! – desligou.

– Problemas? – Ricardo se levantou também.

– Sempre – sorri sem graça.

– Precisa ir? – perguntou mordendo o canto da boca.

Concordei com a cabeça. Ricardo suspirou.

Ficamos nos olhando sem dizer nada.

– Você está bonito Rick! Com essa barba e esse cabelão! – sorri. – Um astro do rock!

Ricardo sorriu encabulado.

– Você sempre foi linda! Mas exagerou na magreza! Está parecendo doente! Olha a finura de seu braço! Pra que isso? Precisa comer direito!

Suspirei.

– Eu como! Não é a falta de comida que está me deixando assim…

Rick me olhou sério.

– Bom, eu vou indo então e…

– Quero a gente de volta. Nossa cumplicidade! Nossa amizade! Quero a Solange de volta! – falou tão baixo que mal eu consegui ouvir.

– Rick…

Então ele deu uma passo para frente rapidamente e selou a boca na minha! Fechei os olhos sentindo a maciez de seu beijo. Sua língua percorreu todos os cantos da minha boca, como se estivesse reconhecendo um território novo. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e por alguns instantes, Solange Souza estava de volta. Aquela menina meiga e sonhadora, que amava muito aquele garoto diante dela.

Nos abraçávamos forte e nos beijávamos com o ímpeto de quem queria resgatar o tempo perdido. Ricardo gemia entre um beijo e outro como se sentisse dor. Mas logo percebi que aquele gemido era de desespero. Ele estava desesperadamente precisando daquilo, assim como eu.

Meu celular vibrou no meu bolso e me tirou totalmente daquele torpor. Empurrei Ricardo.

– Não posso Rick! Não posso! Me desculpa!

Me direcionei para a porta.

– Sol! Espere!

Usei as escadas para sair logo dali.

Cheguei no térreo e Rick estava saindo do elevador.

– Sol – me segurou pelo pulso. Não vai embora! Fique!

O encarei totalmente desnorteada.

– A Solange com toda certeza ficaria, mas ela se foi Rick! Quem está aqui é a Sol Fierce! E essa pessoa, é implacável, insensível, desprezível. Você não tem ideia do que me tornei. Eu sou uma viciada em pó, que não consegue sair de casa sem cheirar uma fileira. Você acha que eu fui para aquele pub por quê? Porque o pó me deu coragem. Eu me drogo todos os dias! Eu bebo mais álcool do que água! Não fico um dia sóbria! Nem um maldito dia!

– Podemos lutar contra isso.

Gargalhei alto.

– O mundo que eu vivo é outro agora. Eu sou outra agora. Toda essa pressão, toda essa fama, turnês atrás de turnês, grana atrás de grana, tudo isso me mudou. Foi um caminho sem volta. Não tem mais jeito Rick! Eu não tenho mais jeito.

– Não estou pedindo para você desistir da sua carreira, Sol. Estou pedindo para você nos dar uma oportunidade de viver o que deveríamos ter vivido antes de você ir embora.

– Pra isso, eu preciso voltar a ser como eu era. Porque você amava aquela pessoa, Rick! Não essa que me tornei. E voltar a ser Solange Souza é sim desistir da minha carreira.

– Por favor…não quero te perder de novo – disse com os olhos cheios de lágrimas.

– Rick, eu já me perdi de mim mesma! Adeus!

Me soltei dele e sai pelo portão.

– Sol – ouvi Ricardo gritar antes de acenar para o taxi e entrar nele – Não vou desistir dessa vez. Vou te achar, Sol! Vou te encontrar e te trazer de volta! Pra mim, pra você!

Bati a porta do carro.

– Hotel Unique, por favor.

Cheguei ao hotel, me informei qual era o quarto de Luigi e Ryan. Um de frente ao outro. Subi e fiquei entre os dois. Bati na porta do quarto de Ryan.

– Sol! Onde esteve a gente…

Me joguei nos braços de Ryan e o beijei com ardor.

– Calma Sol – ele me afastou gentilmente – O que está acontecendo?

– Só me beije! Por favor! Me beije!

Ryan obedeceu. Comecei a tirar a roupa dele e ele a minha na ânsia de possuirmos um ao outro.

– Você usou alguma coisa?  – questionou ofegante – Não quero que depois diga que abusei de você enquanto estava sob efeito de drogas.

– Ryan, estou praticamente limpa. Faça amor comigo! Agora!

Ryan voltou a me beijar e ficamos nus. Ele me colocou na cama e subiu em mim beijando do pescoço até minha intimidade. Eu me virei e montei em cima dele, então, o coloquei dentro de mim desesperadamente. Ele gemeu!

Comecei a cavalgar em Ryan enquanto ele acariciava meus seios e os beijavam com ansiedade. Fechei meus olhos e quando os abri, era Ricardo quem estava embaixo de mim.

Aumentei a velocidade das minhas cavalgadas! Beijei Ricardo! Beijei como nunca havia beijado alguém! Com muito amor! Meu coração batia velozmente. Ricardo sorriu para mim e eu para ele! Por quantos anos eu esperei por aquilo? Pelo momento em que eu estaria em seus braços, sentindo o suor de seu corpo! Era quase uma melodia! Um linda melodia!

– Minha nossa Sol! Estou quase lá! Você está me deixando louco! – era Ryan quem voltou a estar lá comigo.

Fechei novamente os olhos tentando buscar a imagem de Ricardo e cheguei ao clímax. Ryan urrou embaixo de mim e desmoronei em cima dele.

Rolei para o lado e deitei na cama.

– Minha nossa Sol! Que fogo você estava!

Encarei o teto. A imagem de Ricardo não saia da minha cabeça! Seu beijo, seu toque! Comecei a chorar. Ryan me encarou confuso.

– Sol, você…você está chorando?

– Ryan! Não me deixe sozinha! Tenho medo de voltar ao passado e não sair de lá mais.

– Tem algo a ver com o lugar que você foi hoje?

– Me prometa! Me prometa que estará sempre comigo!

– Eu prometo meu anjo! Não saio mais de perto de você – beijou minha cabeça e me abraçou – Estou feliz Sol! Você voltou pra mim! Voltou pra mim!

Permanecemos abraçados. Chorei baixinho até dormir. Ouvi um pouco atordoada a conversa de Ryan e Luigi ao telefone. Ryan havia ligado para ele a fim de avisar que estava comigo. Logo em seguida, o sono me levou novamente. Entre um suspiro e outro fui deixando a escuridão amenizar minha dor.

Toda essa situação seria engraçada se não fosse desesperadora. Todos pedindo para eu voltar. Volta pra mim, disse Ricardo! Você voltou pra mim, concluiu Ryan. A verdade, era que eu só queria voltar pra mim mesma…onde foi que eu me perdi?