Nosso Livro

Capítulo 08 – O Som do Amanhã

22, dez, 2016 Wellington Rafael

Capítulo 8

Miami, 20 de Outubro de 2008.

Miami Beach – 19:40h

 

Você está acreditando nisso?

– Ainda não! E você?

– Ai Luigi! Sempre sonhei em viver da música! Sempre!

– Desde que você tocou naquele pub, não parou hein! Sol Fierce! Sucesso da night em Miami!

– Pois é! Tudo isso graças a você! – esbarrei meu ombro no dele.

Estávamos sentados na areia da praia contemplando o pôr do sol.

– Mérito seu honey bee! Tudo bem que eu consegui os lugares – soltou uma piscadela – mas graças ao seu dom, você está sendo disputada aos tapas!

– Você é um ótimo agente!

– Ai! Que lindo isso! Me sinto uma diva! Poderosíssima! – deu um beijo em seu próprio ombro.

Gargalhei.

– Você fez tudo isso acontecer e sou eternamente grata – o abracei.

Depois do dia em que cantei no pub, Caio, o proprietário ficou tão satisfeito que me fez ir lá mais cinco vezes porque os clientes ficaram no pé dele. Um foi contando para o outro e o pub lotava toda vez que eu estava lá tocando. Até que o proprietário de uma boate veio falar com Luigi e me contratou para cantar todos os finais de semana durante dois meses.

Mais donos de bares, pubs e baladas entraram em contato até Luigi fazer um cartão e se colocar como manager da minha suposta carreira que estava prestes a decolar. Nesse meio tempo, saímos do spa bem mais magros que entramos e decidimos alugar uma casa e morar juntos. Nossa sintonia era maravilhosa! Ele cuidava de mim e eu cuidava dele. Ele cuidava mais de mim do que eu dele para ser bem sincera. Luigi passou a organizar a minha agenda, a fazer contatos e a grana começou a entrar. Então, decidimos fazer uma lipoaspiração.  Nós dois.

Eu já era grandinha e confiante suficiente para fazer minhas próprias escolhas. Luigi era quase dez anos mais velho que eu. Também era de São Paulo mas já morava em Miami há muito tempo. Foi casado com um milionário americano (por isso tinha tantos contatos e conhecia tanta gente) que o largou por uma mulher. Pois é…quase inacreditável, mas aconteceu.

Então ele começou a descontar toda sua frustração em cima da comida. E engordou horrores. Foi parar no spa, lugar este onde nos conhecemos.

Quando saímos do spa, estávamos bem. Não esbeltos como queríamos, mas 42 me parecia um número razoável para quem vestia roupas sob medida, porque nada servia. Mas ainda não estávamos satisfeito e resolvemos fazer essa pequena loucura. Por fim, baixamos nosso número para 38 e mantivemos uma alimentação saudável para não engordar tudo de novo. Sem falar nas corridas na praia, o que virou uma tarefa diária. Não desgrudávamos um do outro. Éramos carne e unha e um passado gorduroso como ele costumava dizer.

Se fosse para me descrever, diria que estava gostosa, meus cabelos continuavam loirinhos, ondulados e logo abaixo no ombro. Meus olhos azuis finalmente se destacavam e passei a chamar a atenção de todos os homens por onde eu passava. Mas eu ainda tinha aquela menina gordinha retraída dentro de mim e custava a acreditar quando homens lindos e sedutores iam falar comigo. Luigi brigava direto comigo:

– Vai lá Sol! Tire as teias de aranha desse sua perereca que não é mais gordinha!

Mal ele sabia que eu era virgem. Eu não contei. Nem pra ele, nem para o cara que me levou para a cama pela primeira vez, depois de Luigi buzinar na minha cabeça falando para eu não perder aquela oportunidade, porque o homem era um “deus”. Ele se chamava John e foi muito gentil! Como eu não sabia de nada (estava meio perdida durante a relação), acho que não despertei muito interesse nele, que ficou de me ligar no dia seguinte mas nunca o fez. Tudo bem! Pra falar a verdade, foi até um alívio. Depois de John, sai com Adam e ficamos juntos quarenta e cinco dias. Mas ele era ciumento demais e aquilo estava me deixando apavorada. Terminei para o bem de todos. Desde então, estava solteira, mas sozinha, nunca!

Luigi também mudou muito. O rapaz gordinho, das bochechas arredondadas, olhos cor de mel e cabelos lisos acastanhados se tornou um homem esbelto do rosto fino e olhar marcante. A bunda ainda continuava grande, mas isso já era característica dele que jamais iria conseguir eliminar. Ah! O rebolado…esse também era o mesmo. Luigi andando parecia que estava rodopiando um bambolê.

– Como era sua vida em São Paulo? – perguntou olhando em direção ao mar.

– Nada boa! Não gosto nem de lembrar – meus olhos encheram de lágrimas mesmo eu lutando contra.

Luigi me fitou sério.

– Conte-me. Você nunca quis falar sobre o assunto e sempre respeitei, mas agora você não é mais aquela menina amedrontada. Estou disposto a falar sobre meu passado também, mas quero que comece.

Suspirei. O encarei e depois fitei o mar.

– Todos me zoavam o tempo inteiro por causa do meu peso. Na escola eu sofria bullying constantemente. Eu me odiava porque todos me odiavam. Odiava minha aparência, minhas atitudes, minha covardia. Eu cresci e as coisas foram piorando. Minha compulsão por comida aumentou em contrapartida da minha autoestima que era cada vez mais baixa. Por mais que eu tentava, não conseguia me ver como mulher, como indivíduo, só me via como um balde de problemas com bastante bacon em cima. Eu tinha vergonha do que eu era e sabia que as pessoas sentiam vergonha de me verem por perto.

– Nossa Sol! Como eu gostaria de estar lá para te defender – senti sua respiração pesarosa.

– Hum! Eu tinha um amigo que me defendia – falei com carinho.

– Mesmo?

– Sim! Ele se chamava Ricardo. Quer dizer, se chama Ricardo, porque com certeza ela ainda deve estar vivo – sorri – vivo e lindo como sempre foi.

– Uau! – voltou seu olhar para o mar.

– O quê?

– Sua voz! Mudou completamente quando falou desse tal Ricardo.

Enrubesci.

– Eu o chamava de Rick e…eu o amava.

– Deu para perceber pelo tom de sua voz. E cadê ele? Por que não manteve contato?

– Porque a última vez que o vi, ele me magoou profundamente. De uma forma que jamais irei esquecer apesar de que…

– De que… – me incentivou.

– De que ainda penso nele. Em como ele está. Como reagiria se me visse assim, com essa nova forma, com esse novo visual.

– Amor não correspondido é foda – suspirou.

– Lidei com isso minha vida inteira até criar coragem para revelar a ele o que eu sentia verdadeiramente.

– E…

– E eu era gorda demais para amolecer o coração duro de tanto gel dele. De início foi tudo lindo, ele até me beijou, mas depois fez piada. Não suportei aquilo. Foi demais pra mim.

– Imagino. Um cara gato e esbelto, suponho – concordei com a cabeça – que vê a gordinha como a amiga engraçada mas que jamais consideraria a possibilidade de sair em público com ela como namorada.

– Jamais!

– Jamais! – repetiu.

– Foi quando eu fugi daquela vida. Já não aguentava mais. Anos e anos sendo ridicularizada por todos. Eu precisava mudar. Mas não somente meu corpo. Mas minha alma.

– Entendo. Uma alma ferida corrói nossa essência, transforma nosso mundo, destrói nosso carácter. Uma alma ferida precisa de reabilitação bem como um dependente químico, porque ficamos viciados assim como eles, mas não em drogas, mas viciados na dor. Parece que precisamos estar constantemente em sofrimento para sentir que ainda estamos vivos. Se dói é porque ainda não é o fim.

Encostei minha cabeça no ombro de Luigi.

– Você sofreu muito com a sua separação, não sofreu?

– Você não tem ideia Sol! Stephan era minha vida! Fazíamos tudo juntos. Éramos o casal gay mais invejados de Miami. Tínhamos uma linda história de amor, amigos preciosos, uma casa estruturada e do nada, isso se perdeu. Eu perdi a minha vida! E o pior de tudo que não foi para outro homem, perdi tudo por causa de uma mulher. Isso sim foi traição. Doeu demais.

– Imagino!

– Minha família sempre teve grana, quer dizer, meu pai sempre teve grana. Quando eu decidi sair do armário ele me rejeitou como uma pestilência nojenta. Me expulsou de casa com a roupa do corpo. Minha mãe me ajudava escondido até ela falecer. Meu pai me expulsou do velório porque disse que minha mãe tinha morrido de desgosto.

– Nossa Luigi! Que horror! – segurei em sua mão e a apertei.

– Mas eu não carrego essa culpa comigo. Minha mãe tinha problemas no coração e os médicos já sabiam que hora ou outra ele iria parar. Mas um dia antes disso acontecer, ela foi até a casa onde eu estava morando, me abraçou e disse que eu era a coisa mais valiosa que ela tinha.  Disse que se mantinha viva por minha causa. Que eu era a razão dela ainda não ter entregado os pontos e que ficaria sempre do meu lado. Então, voltou para casa e foi fazer as malas para ir morar comigo. Teve uma discussão terrível com meu pai e faleceu. Ela pode até ter morrido de desgosto. Mas desgosto do meu pai, não de mim.

– Que história Luigi! Meu passado se torna bem mais suave que o seu.

– Vim para Miami com uns amigos e conheci Stephan! Nos apaixonamos e nunca mais voltei para o Brasil! O resto você já sabe.

O abracei com força.

– Somos duas pessoas que sofreram muito no passado. Sofremos no passado – falei de forma enfática –  De agora em diante seremos a felicidade em pessoa.  Vamos esquecer o que passou e focar no que ainda virá. Não somos lixo para guardar magoas e ressentimentos. Somos jovens e temos muito ainda que viver, que aproveitar!

Luigi me apertou.

– Você é a pessoa mais sábia que eu conheço.

Sorri.

– Claro que sou!

– Nunca imaginei que eu fosse falar isso para uma mulher, mas eu te amo!

– Eu também te amo Luigi! – disse sorrindo.

O telefone dele tocou.

– Luigi speaking – ficou mudo por um tempo – Of course my dear, we’re coming! See you soon.

Virou-se para ficar de frente a mim e segurou em minhas duas mãos.

– Honey Bee, você não vai acredita na notícia que acabei de receber – falou com aquela voz de suspense que fazia meu coração acelerar beirando a um colapso.

– O que foi?

Ele me encarou fazendo aquela cena teatral típica.

– Fale logo Luigi! Estou quase enfartando!

– Mattew acabou de me ligar! O dono da boate Bad Things, lembra? – concordei com a cabeça – Pois bem, os vídeos de você cantando chegaram a mais de 6 milhões de visualizações e um produtor de Nova York está lá na boate QUERENDO CONVERSAR COM A GENTE – gritou fazendo as andorinhas voarem!

Levantamos da areia aos pulos e começamos a rodopiar abraçados.

– Não acredito! – gritei.

– Sol essa é a nossa chance de ouro – segurou meu rosto com as duas mãos – Essa é a chance de fecharmos um contrato com uma produtora, você consegue entender o que é isso?

– Não, não consigo! Mas vou conseguir! VOU CONSEGUIR! – soltei mais um brado.

Continuamos a fazer dancinhas malucas até Luigi olhar no relógio.

– Ai meu Deus! O homem está nos esperando! Vamos logo Sol Fierce! O sucesso te espera! – falou enervante.

Bati palmas, pegamos nossos chinelos jogados na areia e saímos sorrindo. Minha vida estava mudando radicalmente e eu estava adorando tudo aquilo! Saí correndo de mãos dadas com Luigi sem ter ideia que aqueles eram os últimos momentos de Solange Souza. Uma nova pessoa se formava dentro de mim. Uma pessoa totalmente diferente, uma pessoa que eu sempre sonhara em ser. Mas nunca imaginara que em um futuro próximo, iria acabar odiando-a.