Colunas e Textos

Capítulo 06 – O Som do Amanhã

09, dez, 2016 Luana Leão

Capítulo 6

Miami, 10 de Janeiro de 2006.

Spa Home Health, 10:00h

 

Olhei para um lado, olhei para o outro.

Ninguém sentado na fonte no centro do enorme jardim. Ninguém deitado debaixo das árvores, ninguém fazendo caminhada admirando as flores.

Território livre.

Nenhum supervisor, nenhum vigia, nenhum passante.

Tirei o bolinho de chocolate esmagado entre os seios e o olhei por alguns segundos admirando sua beleza disforme e gordurosa.

Um suspiro enleado saiu involuntariamente das profundezas da minha garganta e eu não saberia dizer se foi fruto da minha completa redenção por aquele ser inanimado e extremamente calórico ou se foi por finalmente colocar algo de real sabor dentro da boca.

Quando estava preste a me deliciar com o bolinho fofo ouvi nitidamente um pigarro nas minhas costas que me assustou de tal forma que me fez lançar meu pedacinho do paraíso a quilômetros de distância.

– Nãooooooo!! – o rapaz atrás de mim sussurrou rouca e desesperadamente. – Por que você fez isso?

O encarei numa mistura de confusão e raiva.

– Você me assustou! Achei que fosse a supervisora Cherry.

– Você jogou nossa única oportunidade de plena satisfação para o outro lado do muro.

– Nossa? MINHA única oportunidade de plena satisfação… –  resmunguei.

– Então, se eu tivesse pedido um pedaço você se recusaria a dar?

Cerrei os olhos encarando aquela figura do rosto oval e olhos cor de mel. Bochechas besuntadas e rosadas. Alto, poucos centímetros de diâmetro menor do que eu, o que quer dizer que ele era levemente menos gordo. Levemente. Pouquíssima coisa, quero frisar.

– E por que eu dividiria meu doce bolinho com você?

– Para sua consciência não doer tanto. Afinal, você teria um cumplice. Um companheiro de auto sabotagem.

Suspirei descrente. Olhei para o muro a minha frente e depois fitei o chão.

– Ainda bem que me assustei. A essa hora eu estaria chorando no banheiro por causa da minha falta de controle.

O rapaz sorriu e alisou meu braço.

– Confesso que pensei em roubar seu bolo e enfiar tudo na minha boca, mas achei melhor pedir. Mas que bom que o universo conspira a favor dos gordinhos. Meu nome é Luigi – disse sorrindo tristemente e estendendo a mão.

– Sol – trocamos apertos.

– Então Sol, que tal voltarmos para o salão principal e participar da aula de ioga juntos? Podemos depois nos fartar com uma cornucópia de folhagens e frutas da estação na hora do almoço! – levantou as sobrancelhas e esbugalhou os olhos como se aquela ideia fosse a coisa mais perfeita dos últimos tempos.

Comecei a sorrir.

– Me parece fantástico!

– Então me dê a honra – curvou o braço e entrelaçou minha mão nele. – Mas saiba que da fruta que você come, eu dou chilique! Então apesar do meu rosto de príncipe e corpo esbelto, se controle! Jamais conseguirá me seduzir.

Dessa vez ele me arrancou uma grande risada.

– Farei um esforço para controlar a vontade de te agarrar.

Luigi sorriu e fomos juntos para aula de ioga.

O Spa Home Health era um lugar de uma beleza singular, composta de quartos individuais muito aconchegantes, salas para ginasticas, auditórios para palestras, refeitório limpo e bem iluminado e um espaço externo de arrancar suspiros. Nessa área externa, podíamos encontrar uma quadra poliesportiva, uma pista de caminhada rodeada por flores de todas as cores e cheiros, arvores espalhadas por todos os cantos formando uma imensa área verde (chamada de centro de recreação) para exercícios ao ar livre. Um internato de elite para quem queria perder peso sem uso de medicamentos e/ou cirurgia.

Essa foi a opção dada pelos meus pais.

Por mim, me entupia de remédios ou entrava na faca para me livrar dos volumes extras que me cercavam e sufocavam. Mas eles não concordaram.

– Quer emagrecer? Pois bem! Então faremos de uma forma saudável. Mas terá que ter disciplina. Minha amiga ficou três meses em um spa de emagrecimento e voltou magnífica! Fica em Miami – disse mamãe veemente.

– Ótimo! Fora do país é melhor ainda!

– Se quiser posso pegar os detalhes e fazer uma reserva.

– Pegue os detalhes e faça a reserva.

– Sol, você vai ter que morar nesse spa. É tipo uma clínica para dependentes. Só que dependentes de muita comida.

– Acho que me encaixo no perfil.

– O que eu quero dizer é que você terá que seguir regras rígidas de exercícios e alimentação.  Caso contrário eles te expulsam do programa.

– Farei o que for necessário, só me mande para lá, ok?

– Tudo bem! Vou pegar mais detalhes.

– Mãe?

– O que?

– Deixe os detalhes para lá. Faça a reserva!

E assim fui parar no Spa Home Health, no meio de pessoas como eu, querendo o mesmo que eu, se esforçando para ser alguém não como eu.

Os dias foram passando e minha amizade com Luigi ficava cada vez mais sólida. Fazíamos tudo juntos. Todas as aulas, todas as refeições (se é que comer uma variedade de capins podia se chamar de refeição), participávamos das palestras de incentivo e tudo mais. E juntos, nunca mais roubamos nenhum bolinho da bolsa dos funcionários do spa.

É.

Aquele bolinho estava dando sopa na bolsa da faxineira do spa quando eu entrei na cozinha (a pedido da supervisora Cherry) para solicitar uma jarra de água para o centro de recreação. Lugar este onde eles nos colocavam para correr, pular obstáculos, suar, morrer…

Luigi era uma das pessoa mais engraçadas que eu já tinha conhecido. Fazia piada de tudo. De seu peso, do peso dos outros, da comida, das aulas, das palestras. Era um comediante em potencial. E isso fez com que os dias internada dentro daquele spa ficassem bem mais leves. De pesada bastava eu.

Em uma tarde, quando estava guardando os materiais da ginastica rítmica (a cada aula, um era responsável por guardar os objetos usados), comecei a cantar. Era a primeira vez depois de quase um mês no local que eu cantava. Nem quando estava tomando banho eu soltava a voz. Mas a companhia agradável de Luigi e finalmente o gosto por emagrecer tomou conta de mim, e me senti viva novamente. Cantar era a prova de que não havia tristeza capaz de derrubar a oportunidade de se lutar pela felicidade.

Soltei a voz.

Cada objeto, uma nota.  E me perdi na melodia como um casal apaixonado se perde em um beijo. Demorei propositalmente mais do que o normal para guardar as coisas, só para não ter que parar de cantar. Mas depois de alguns minutos e a sala em perfeita ordem, parei. E assim que parei uma salva de palmas calorosa fez o breve silêncio da sala desaparecer. Estava tão envolvida que nem havia percebido as pessoas se aglomerando.

Olhei para trás e Luigi, Cherry, os companheiros de luta contra a balança, os funcionários da clínica, médicos e mais um monte de gente estavam parados na imensa porta de vidro me observando e me aplaudindo com fervor. Gritos assovios e muitos comprimentos.

– Uau Sol! Você é maravilhosa!

– Como nunca cantou para gente?

– Sua voz é perfeita!!

– Você deveria ser cantora!

Meu rosto adquiriu uma tonalidade rubro negra tamanha vergonha. Luigi esperou a avalanche de pessoas em cima de mim se dissipar e se aproximou.

– Como? Por que? Me explique qual o motivo que a levou a esconder esse dom magnífico que você tem de nós, reles mortais? Posso saber? Você é FAN-TAS-TI-CA! Honey bee! Você tem talento. Ou melhor, você é o talento em pessoa! Estou chocado! Pasmo! Chocado de novo!

Soltei uma risada encabulada.

– O mundo tem que ouvir isso!

– Ah! Pare Luigi! Não é para tanto.

– É verdade! Não é para tanto! – fez uma breve pausa. – É para muito mais! Sua cretina miserável! Simplesmente não vou mais conseguir viver sem ouvir sua voz!

Sorri exultante.

Desse dia em diante, ao final da tarde, todos sentavam em roda e me faziam cantar. Luigi arrumou um violão. Eu sabia tocar muito bem e foi o suficiente para formarmos uma seresta. Era o melhor momento do dia. O spa começou a ser uma casa para mim e as pessoas ali, minha família.

Quarenta e cinco dias depois e muitos quilos a menos, ganhamos nosso primeiro alvará de soltura. Na verdade, ninguém era obrigado a ficar dentro da instituição o tempo inteiro. Você tinha que estar lá porque queria estar lá! Eles pediam 3 meses para te colocar em forma, desde que você seguisse o programa à risca. E eu estava cansada de ser prisioneira do meu próprio peso. Além do mais, minha autoestima estava beirando as profundezas de um poço o que facilitou a decisão de não querer sair de lá de forma alguma.

Luigi também nunca saiu antes do prazo autorizado.

Primeiro contato com o mundo exterior: 45 dias após o início do programa.

A Supervisora Cherry, bem com os psicólogos, nutrólogos, endócrinos e toda a equipe que sustentava aquele lugar acreditavam que em 45 dias eles conseguiriam adestrar nosso estômago. Dessa forma quando saíssemos da instituição e entrássemos em contato com diversas fontes de alimentos calóricos e tentações mundanas não iríamos sucumbir ao desejo de nos entupir de batata frita e salgadinhos, já que, teoricamente, estávamos acostumados a comer pouco e de forma saldável.

Faríamos o teste naquele dia.

Podíamos sair após o almoço. Passear por Miami. Fazer compras, tomar um chá com uma bolacha em algum lugar. A noite podíamos voltar para o aconchego seguro do spa ou jantar fora e voltar apenas para dormir, desde que nesse jantar, o prato estivesse cheio de legumes e um grelhado.

– Está pronta? – Luigi me encarou.

– Acho que sim!

Ele acenou positivamente, segurou em minha mão e juntos passamos pela porta da frente do Spa Home Health.

Passamos o dia fazendo compras. Confesso que comprar roupas três números a menos do que costumava usar me trouxe um prazer indescritível! Eu estava feliz! Luigi também. Seu corpo estava mais esbelto, o rosto mais fino e um brilho nos olhos que refletia satisfação.

– Uau! Está uma arraso – falou assim que eu saí do provador vestindo uma calça justa preta e blusa de manga três quartos de renda vermelha

– Você acha?

– Sim! Linda! Já fique com ela! Está anoitecendo e vamos em um pub de um conhecido meu.

– Não vamos voltar para o spa?

– Hoje não, honey bee. Vamos nos divertir! Comemorar a eliminação dos nossos quilos extras.

– Ainda temos muito o que perder!

– Eu sei! Mas vinte quilos em quarenta e cinco dias, sem cirurgia plástica é uma vitória magnífica e que tem o direito de ser muito bem comemorada!

Sorri.

– Você tem razão! Mas sem petiscos e bebidas. Eles fazem inchar.

Luigi beijou os dedos cruzados!

– Prometo que pedirei uma porção de tomates cerejas de entrada e filetes de salmão grelhado como prato principal! Bebida, suco.

– Sem açúcar!

– Sem açúcar! – confirmou.

– Então eu topo.

Pouco tempo depois estávamos pisando no amadeirado piso do pub. Luigi se identificou para o segurança que abriu as portas apesar da placa ainda estar virada no sentido “Close”. Cortinas vermelhas e grossas se estendiam até o chão cobrindo todas as janelas. Mesas redondas de madeira entalhada e cadeiras com o estofado de couro vermelho fazia o lugar ficar moderno e requintado. A luz era fraca e amarelada e logo a frente um palco central acomodava diversos instrumentos.

– Caio! Oi! Como está? – Luigi acenou para um rapaz alto, cabelos pretos, pele morena de sol, olhos castanhos e expressão bastante aflita.

– Luigi! Que bom que veio! Mas estou arrasado! Ar-ra-sa-do! – a voz estridente e cantarolada saiu da boca do rapaz.

Suspirei descrente. Tanta beleza e mulher alguma iria desfrutar dela. Bom, pelo menos um homem faria as vezes.

– O que aconteceu bicha?

– A banda que ia tocar hoje à noite… – colocou as mãos no rosto.

– O que é que tem?

– Simplesmente não veio! E agora? Não sei o que vou fazer! O pub abre daqui a meia hora! Nunca, nunca, nunquinha o pub ficou sem música ao vivo. Nem uma noite se quer! Sempre temos uma banda, ou solo. Não acredito que vou ter que colocar algo eletrônico aqui hoje! Isso é a treva! – puxou os cabelos.

Depois parou um pouco. Olhou Luigi de cima a baixo.

– O que é isso? – soltou um grito.

Luigi riu.

– Você está belo! Magro! Fada madrinha das bichas encantadas! Arrasou baby!

Deu um abraço apertado em Luigi. Mas logo o sorriso na boca de Caio foi substituído pela expressão de desespero novamente.

– Você está lindo! Mas eu ainda tenho um problema enooooooooooormeeeeee!

Luigi mordeu a boca e fitou o chão pensativo.

– Acho que tenho a solução dos seus problemas.

E após dizer isso, olhou para mim.

– Conheça a Sol!

Sorri cumprimentando-o mas logo caiu a ficha. Luigi estava prestes a….

– Mais conhecida com Sol Fierce.

– Oi? – exprimi os olhos.

– A melhor cantora que você podia ouvir na vida.

– Luigi eu não… – tentei evitar o que estava prestes a acontecer.

– E ela – ele me interrompeu, – vai cantar para você hoje e salvar a sua noite.

– Eu não vou…

– Mentira? – Caio me cortou. – Jura? Faria isso por mim?

Encarei Luigi que me olhava com aquele sorriso de expectativa. Depois fitei Caio que estava com a mesa expressão.

– Eu…eu nunca…quer dizer…eu…

– Ah! – Caio me abraçou. – Obrigado! Obrigado! Obrigado! Tommy! – gritou. – Leve essa moça linda para o palco. Você toca violão né? – nem esperou eu responder. – Ótimo!

Me empurrou em direção ao tal Tommy.

Encarei Luigi extremamente atordoada e totalmente sem reação.

– Arrasa Sol!

Foi a última frase que Luigi me disse antes do momento que transformou de vez as nossas vidas. Tudo pareceu ter acontecido numa fração de segundo.