Nosso Livro

Capítulo 04 – O Som do Amanhã

25, nov, 2016 Luana Leão

Capítulo 4

São Paulo, 25 de Novembro de 2005.

Pub Black Sound, 20:00h

 

Coloquei meus pezinhos gorduchos espremidos pelas tiras da sandália, dentro daquele lugar fechado e esfumaçado.

Aquela era sem dúvida uma péssima ideia. O que eu estava fazendo no lugar mais badalado de São Paulo?

Estava quente e logo gotas de água formaram em minha testa e debaixo do nariz. Tirei o lenço do bolso da calça e esfreguei no rosto, sem minimizar a nidiez das salientes bochechas. Minha calça jeans tamanho XXG estava apertada. Com certeza, eu tinha engordado ainda mais. Meus peitos quase explodiam numa blusinha preta. Dentre tantas roupas, eu tinha que escolher justo aquela. Outra péssima ideia.

Poças de suor se aglomeravam debaixo das minhas axilas. Por sorte o tecido preto evitava a exibição delas. Somente nessa hora, percebi que aquela roupa, talvez, não tinha sido uma tão péssima ideia assim. Corri o olho pelo lugar. Muita gente bonita e descolada. Mulheres usando tops e mini saias. Calças justas e blusinhas apertadas mostrando seus corpos esbeltos.

Suspirei. Meu estômago estava alto pela quantidade de comida que eu havia acabado de ingerir. Passei a manhã e tarde inteira colocando apenas líquidos na boca. A ideia inicial era fazer meu abdômen murchar pelo menos alguns centímetros para a grande noite. Mas próximo das seis da tarde eu não aguentei. Abri a geladeira e consumi todo o alimento que estava dentro do prazo de validade. O eflúvio do bacon frito devorado com voracidade fixara em minha pele e perfume algum conseguiu tirar. Resultado: ao invés da minha barriga murchar alguns centímetros, ela aumentou o que parecia metros…

Eu tinha que ir embora. Me direcionei para a porta de saída quando ouvi:

– Sol! Que bom que veio!

Engoli em seco. Arrumei meus cabelos ondulados que estavam um pouco abaixo dos ombros e voltei meu olhar para Ricardo, forçando um sorriso.

Minha nossa! Como ele estava lindo!

Usava calça jeans levemente rasgada nas coxas, com correntes penduradas nas laterais, regata branca colada no corpo, acompanhando as definições de seu abdômen, botas Timberland café. No pulso, uma pulseira de couro adornava sua pele bronzeada. Seus cabelos aloirados, espetados para cima, brilhavam por causa do gel.  17…quase 18 anos de pura sensualidade.

– E você acha que eu iria perder sua noite de estreia?

– Nem acredito que conseguimos tocar aqui! Esperava esse convite há séculos! O Arthur, dono do lugar, disse que se as pessoas gostarem, vai fazer um contrato com a minha banda para tocar todos os finais de semana! Não é o máximo! – disse com um sorriso imenso.

– Claro que é um máximo! E já se considere contratado! Você é o melhor cantor que eu conheço Rick!

– Não, não! Acho que sou o segundo melhor cantor que você conhece.

– Ah é? E quem seria o primeiro? – enruguei a testa.

– Você! – disse apontando pra mim e em seguida me deu um forte abraço.

Eu sorri, agradecendo por ele ter me abraçado puxando-me pelo pescoço, se fosse por debaixo dos braços, com certeza sairia encharcado desse abraço.

– Agora vou lá! Aproveite o show!

Encostei em uma mesa ao lado do bar. Avistei Michelle, atual namorada de Ricardo e acenei. Ela me olhou com desprezo e depois virou a cara.

Olhei para baixo sem graça e sentei.

A banda de Ricardo começou a tocar.  Rick começou cantando Led Zeppelin com Whole Lotta Love. A voz perfeita e totalmente afinada. Sem falar naquela mania de morder a parte de dentro da bochecha e deixar a boca levemente aberta enquanto tocava guitarra. Ah! Aquilo fazia meus pelos arrepiarem!

A galera do pub aplaudiu com voracidade e todos começaram a se levantar para ficar frente ao palco.

Eu tentei me aproximar e acabei empurrando sem querer uma menina.

– Olha por onde anda, elefante.

Ignorei e consegui chegar.

Rick terminou a música e todos aplaudiram e assoviaram.

– Boa noite galera! Obrigado por nos receberem! Agora quero chamar ao palco uma grande amiga e excelente cantora que irá fazer um dueto comigo nessa próxima música. Suba aqui Sol!

Eu olhei para um lado, olhei para o outro.

– Venha! Suba! – disse ele olhando pra mim e falando fora do microfone.

Sorri sem graça balançando a cabeça em negativa. Rick revirou os olhos, pulou do palco e foi até mim.

– Venha!

– Está doido? Esse é o seu show! Não quero atrapalhar!

– Está na hora do público conhecer a sua voz, Sol! –  falou me arrastando por entre as pessoas.

Chegamos no palco e ele subiu com agilidade, num pulo só. Já eu…

Coloquei meu joelho esquerdo e as duas mãos em cima do palco e fiz uma força gigantesca para subir meu corpo rechonchudo naquele tablado.

Rick estendeu a mão para me ajudar e enfim consegui.

Ele correu para a beirada do palco e pegou um banco para eu me sentar.

– Vamos cantar Patience, ok?

Acenei positivamente com a cabeça.

Olhei para frente e vi o bar inteiro me encarando com sorrisinhos sarcásticos no rosto.

A saliva desceu pela minha garganta como areia seca. Meu coração rufava como um tambor.

Sentei-me no banco e ele começou a tocar a guitarra.

– Você começa! – disse.

Eu, mesmo envergonhada, cantei a primeira estrofe muito bem. As pessoas que antes me olhavam com caras feias e desconfiadas já haviam suavizado seus olhares.

Quando chegamos ao refrão, comecei a me empolgar e meu corpo começou a balançar conforme o ritmo da música. Rick sorriu para mim e também começou a se movimentar.

O Pub inteiro nos acompanhava. As pessoas agora me olhavam com surpresa e admiração. “Minha nossa! Eles estão gostando! Estão verdadeiramente gostando de me ouvir!”

Rick jogou a guitarra nas costas e bateu as mãos no alto. Todos ali o acompanharam. Estava lindo! Vozes e palmas! Palmas e vozes! Um ritmo belíssimo de melodia e felicidade! Olhei para Rick e sorri com satisfação, ele envolveu um de seus braços em meu ombro e continuamos a cantar movimentando nossos corpos.

Ouvi um estalo, mas não me dei conta do que estava a prestes a acontecer e continuei a me balançar totalmente à vontade, sentada naquele banco de madeira, com a mãos de Rick alisando meu ombro. Era sempre assim, quando eu cantava, me entregava por completa. Me esquecia de onde estava, me esquecia de quem eu era.

Foi então que o pé detrás do banco partiu ao meio, fazendo-me emborcar para trás e bater com as costas fortemente no chão.

Rick imediatamente largou a guitarra no chão e foi me ajudar a levantar.

Todos, sem exceção, gargalharam sem parar.

Michelle se aproximou do palco.

– Essa gorda acabou com seu show! Foi uma péssima ideia tê-la chamado para cantar com você.

Ricardo lançou lhe um olhar repressor.

– Me desculpa por constrange-lo, Rick –  eu disse apoiando desajeitadamente o antebraço no chão afim de me levantar.

– Você se machucou? – perguntou ignorando meu comentário.

– Não.

Virei de costas para o público e fique de quatro tentando me colocar de pé quando senti o rasgo em minha calça. A gargalhada duplicou de volume.

– Minha nossa!  – disse colocando as mãos na bunda tentando tapar o imenso rasgo.

Rick com muito esforço me ajudou a levantar.

Assim que finalmente consegui firmar os pés no chão, olhei para a plateia que ria descontroladamente.

Todos apontavam em minha direção proferindo palavras de insulto e piadas, se divertindo do meu constrangimento. Eu parecia uma palhaça de circo. Meu rosto ferveu tamanha vergonha e minha garganta se fechou na tentativa de segurar o choro.

Desci do palco o mais depressa que consegui e sai correndo por entre as pessoas esbarrando e derrubando algumas.

– Sol! – Rick gritou.

Saí do pub e finalmente deixei as lágrimas escorrerem.

– Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! – dei um grito, liberando minha raiva e vergonha.

As pessoas que passavam na rua me olharam assustadas.

Pouco tempo depois Rick apareceu.

– Sol! Espere!

– Rick, por favor, volte para seu show. Eu vou embora!

– Eu te acompanho até em casa.

– Não! Vou de táxi. Você esperou a vida inteira por essa noite e eu a estraguei em poucos minutos.

– Você não estragou nada. Estava indo muito bem. Você é ótima! Canta pra caramba! Você…

– Pare Rick! – gritei sem perceber.

Ele esbugalhou os olhos.

– Pare de ser tão legal assim! Você não me deve nada. Não precisa me defender o resto da vida porque na infância eu te ajudei com alguns meninos valentões.

– Do que está falando? – enrugou a testa inconformado.

– Estou falando que sua dívida comigo já foi quitada há anos. Não precisa mais fazer o papel de amigo dedicado.

– Sol, eu gosto de você. Pare com isso!

– Gosta de mim? Por quê? Não tem nada em mim para ser gostado!

Uma garota passou por nós e a ouvi dizendo: “A calça dela está rasgada?”.

Suspirei.

– Volte para sua namorada. Volte para seus amigos. Volte para seu show. Eu vou embora.

Virei as costas e Rick segurou em meu braço. Na verdade, na metade dele.

– Está sendo injusta. Sabe o quanto eu me importo com você! Somos companheiros há anos. Eu te quero ao meu lado! Você é bem mais que uma amiga pra mim! Você é uma…uma…

– Irmã? – me virei e voltei a fita-lo.

Rick esfregou a boca.

– Sol, você estava fantástica ali dentro – falou com ternura.

– Até eu atrapalhar tudo! Eu só te causo problemas! Você devia se livrar de mim.

Rick revirou os olhos.

– Está falando besteira! Mais uma vez está sendo injusta comigo e consigo mesma.

Balancei a cabeça de uma lado para o outro.

– Não Rick, estou te livrando de um peso. Um peso enorme! Eu só te trago constrangimento. Só faço você passar vergonha. Mas quero que fique tranquilo, porque nunca mais isso vai acontecer.

– Sol, você não me passa vergonha. Eu gosto mesmo de você. Somos grandes amigos e…

– E que amigos sabem quando fazem mal um ao outro.

– Você não me faz mal!

– Mas você me faz!

Rick curvou as sobrancelhas e espremeu os olhos confuso.

– Como é? Eu te faço mal?

Parei uns minutos para raciocinar direito. O que eu estava prestes a fazer, ou melhor, falar, poderia destruir minha amizade com Rick. Mas chegara um momento que eu tinha que colocar para fora todo esse sentimento reprimido em meu peito. Mesmo se ele risse, me desprezasse ou ignorasse o que eu estava prestes a falar, eu tinha que arriscar. Então suspirei e disse amedrontada:

– Sim, e muito. A vida inteira eu quis estar ao seu lado, Rick. Alimentando a esperança de um dia você olhar pra mim como alguém além de uma amiga gorducha e atrapalhada. Sempre alimentei a esperança de algo que jamais iria acontecer.

Rick ficou lívido e sua boca entreabriu de susto.

– Sol eu…

Levantei a mão para ele parar de falar.

– Não diga nada. Só me escute. Eu preciso fazer isso. Eu preciso falar o que guardo há anos dentro do meu peito – enchi o pulmão de ar e o corpo de coragem. –  A verdade é que eu te amo desde os sete anos. Nós fomos crescendo, você se tornou esse homem lindo e meu amor só aumentou. A cada namoro que você terminava eu comemorava, esperando a minha vez que nunca chegava. Mas logo, outra mulher magra e linda ocupava o cargo que eu queria ocupar.

Rick colocou as mãos na boca e me olhou com…piedade.

– Por que nunca me disse isso? – falou quase sussurrando.

– Porque eu tinha medo que você risse de mim.

Rick se aproximou de mim e passou as costas da mão delicadamente em meu rosto.

Encarei aqueles olhos verdes e a única coisa que eu conseguia enxergar era a enorme pena que ele estava sentindo de mim. Isso fez meu coração diminuir de tamanho.

Pena não, tudo menos pena.

– Não faça isso.

– Isso o que?

– Não tenha pena de mim.

– Eu não tenho pena, Sol, eu tenho…tenho…

Rick se aproximou e selou seus lábio no meu com ternura.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

– Rick! – o baterista de sua banda se aproximou de nós – Que merda está fazendo? Volte lá para dentro. Temos um show pra fazer, cara! Essa é a nossa grande oportunidade!

Rick se afastou de mim imediatamente.

– A gente se fala depois, Sol! Eu te ligo mais tarde – disse apressadamente.

Piscou pra mim e sorriu com carinho.

Concordei com a cabeça. Ele se afastou com o baterista e eu coloquei a mão nos lábios.

O que tinha acabado de acontecer? Minha nossa! Ele tinha me beijado! Eu finalmente tinha conhecido a maciez da sua boca, a suavidade de seu beijo.

Era de longe, o dia mais feliz da minha vida.

Olhei para o chão e vi a corrente que estava pendurada na calça de Ricardo jogada. A peguei.

– Rick! – gritei, mas ele não me ouviu. Já estava quase entrando no pub novamente.

Corri afim de alcança-lo para lhe entregar a corrente. Quando me aproximei, ouvi a conversa:

– Era impressão minha ou você estava beijando aquela balofa?

– Está louco? Claro que foi impressão. Dei um beijo na bochecha dela.

– Ah bom! Como a bochecha é enorme, pareceu que estava no rumo da boca – riu. – Porque se você trocasse a Michelle por aquele balde de gordura eu iria te internar.

– É claro que não! Ela é minha amiga e estava triste e tals, foi mais por dó, sabe? Eu jamais namoraria com ela – disse com desdém rindo e dando um empurrão com o ombro no baterista.

Parei de andar e fiquei num completo estado letárgico e eles entraram no pub sem nem perceberem que eu estava logo atrás.

Fiquei parada alguns instantes absorvendo o que eu acabara de ouvir.

“…foi mais por dó, sabe?”

Sei. Eu sei.

– Moça, sua calça está rasgada, você percebeu? – uma menina se aproximou falando o mais gentil possível.

A olhei um tanto desnorteada e concordei com a cabeça.

As lagrimas saltaram do meu rosto como chuva de verão. De repente.

– Moça, está tudo bem? Olha, tem gente que nem percebeu o rasgo, não precisa chorar.

Saí correndo até a esquina esbarrando na garota gentil e acenei para o primeiro taxi que passou na rua.

– Me leve para bem longe – eu disse aos prantos.

O taxista me olhou pelo retrovisor e arrancou.

– Chega. Não aguento mais essa tortura. Não posso mais continuar assim. Não posso mais…não posso mais… – falei entre um soluço e outro.