Nosso Livro

Capítulo 03 – O Som do Amanhã

18, nov, 2016 Luana Leão

Capítulo 3

New York, 23 de Fevereiro de 2014

The New York Palace Hotel, 7:00h

 

A luz intrusa e desavergonhada invadiu meus olhos fazendo minha cabeça bater como os saltos altos de uma rainha de bateria em dia de carnaval. Coloquei meu antebraço no rosto tentando me esconder da claridade.

– Merda! Quem deixou a cortina aberta?

Mexi para o lado e senti um peso em meus seios. Abri um olho e girei a cabeça para o lado esquerdo. Lá estava um estranho em minha cama, ocupando folgadamente parte dela, babando no travesseiro e nu.

Suspirei impaciente.

Joguei o braço do desconhecido para longe de mim e segurando minha cabeça levantei da cama.

– Onde está? Onde está? – falei correndo os olhos espremidos pelo lugar.

Saí do quarto e entrei na antessala.

Essa era uma de nossas exigências. Todo hotel que hospedávamos tinha que ter dois ambientes. Uma sala grande com sofá, mini bar e mesa para refeições, sacada e uma espaçosa suíte com banheira.

– Finalmente! Isso deve acabar com essa maldita dor.

Peguei o saquinho que estava jogado no balcão do mini bar.

Sentei no sofá de couro branco, rasguei o saquinho e despejei todo o pó branco em cima do vidro da mesa de centro. Peguei minha bolsa que estava debaixo de uma almofada, tirei uma nota de cem dólares da carteira, fiz um canudinho. Com o cartão de crédito, separei o pó em duas fileiras. Ajoelhei entre o sofá e a mesa e inspirei uma fileira com o canudo de nota.

– Pronto – falei limpando o nariz -, bem melhor!

Mexi novamente na minha bolsa, peguei o maço de cigarro e o isqueiro. Acendi um cigarro e dei uma longa tragada.

Alguém bateu na porta e mesmo sem ser convidado entrou.

– Minha deusa maravilhosa, minha honey bee! Bom dia! Já estão trazendo seu café da manhã e …JESUS COROADO! – gritou Luigi assim que seus olhos encontraram minha estrutura mal acabada.

Colocou as duas mãos no rosto e fez aquela cara teatral de espanto.

– Você está um bagaço! E nua! – completou com uma voz fina e histérica.

– Obrigada – disse eu inspirando mais uma fileira de pó e em seguida, dando mais uma tragada no cigarro. – Tem que parar com essa mania de pedir uma cópia da chave de meus quartos, Luigi! Me dê um pouco de privacidade de vez enquanto!

– Honey bee, sabe que faço isso pela sua segurança! Vai que acontece algo com você dentro do quarto.

– Aham… – bufei.

– Agora vá logo lavar esse corpinho magrelo! Temos que viajar, meu amor! Voltar para o Brasil! Vou separar a sua roupa – saiu rebolando aquela bunda imensa em direção ao quarto –, e seus sapatos e…Ahhhhhhhhhhh!!!!!!!! – gritou.

Soltei uma risada alta. Sabia que isso iria acontecer.

Luigi voltou para a antessala pisando forte com o seu Louboutin de couro preto, desenhado exclusivamente para ele.

– Tem um homem nu na sua cama!

– Eu sei.

– Você sabia e não me disse nada?

– Não sei porque o escândalo, bicha! Você já viu dezenas e já pegou em milhares desses. Qual o problema?

Luigi sorriu impaciente.

– O problema queridinha é que nós combinamos! Nada de peguetes! Seu nome está na boca da imprensa. Você prometeu ficar mais comportada.

– Quero que a impressa se exploda – balancei levemente o cigarro para me livrar das cinzas em cima da peça de cristal sobre a mesa.

Luigi suspirou pesarosamente.

– Você acabou de sair de um escândalo envolvendo drogas e homens – esperou alguns segundos antes de completar –, homens vivos e mortos. Não quer entrar em outro, quer?

Encarei Luigi e rangi os dentes. Apaguei o cigarro na peça de cristal e bati a mão na mesa de centro fazendo o resto de pó pular.

– Aqui está a droga!

Levantei e caminhei apressadamente até o quarto e gritei de lá.

– Minha nossa! Veja só! Aqui tem um homem!

Luigi me seguiu e colocou as mãos na cintura.

– Tudo bem Sol! Você é quem manda! – disse baixinho.

Virou-se ficando de costas para mim e jogou os cabelos alisados pela chapinha para trás.

– Só estou tentando te proteger – sussurrou e deu um passo em direção a porta.

– Espere! – falei rapidamente. – Me desculpa! Sei que faz tudo por mim. Eu…estava me sentindo só. Desde aquela noite terrível eu não ficava com ninguém e eu pensei…agora que as coisas estão mais tranquilas…

O homem em minha cama mexeu e abriu os olhos.

– Bom dia, gata – falou preguiçosamente com a voz rouca e um sorriso irritante.

Revirei os olhos e bufei.

– Vou me trocar em seu quarto, Luigi. Leve minhas roupas pra lá e livre-se dele – apontei com a cabeça para o homem na cama.

O rapaz olhou para mim e depois para Luigi um pouco confuso e transtornado.

Assim que eu girei a maçaneta do quarto, Luigi segurou em meu braço.

– Vista isso – disse me entregando um roupão. – Sair pelada no corredor de um hotel também entra no quesito “escândalo” – fez as aspas com os dedos. – E escândalo é uma palavrinha que estamos tentando evitar por enquanto.

Concordei com a cabeça, vesti o roupão, peguei a chave de suas mãos e fui tomar meu banho no quarto ao lado.

O quarto de Luigi estava bem mais arrumado que o meu, que tinha garrafas vazias de bebidas e objetos espalhados por todos os cantos.

Deixei meu roupão escorregar pelo corpo, entrei no banheiro e me encarei no espelho. Meu cabelo estava todo revoltado. Olheiras profundas desenhavam meus olhos como manchas de um dálmata. Minhas costelas apareciam tamanha minha magreza e alguns roxos formavam desenhos abstratos em minha barriga.

Suspirei.

Abri o blindex, liguei a ducha no mais quente que eu conseguia suportar e entrei nela, deixando minha pele branca ficar vermelha.

– Ah! Precisava de um banho.

Ouvi o barulho da porta batendo.

– Luigi – gritei. – Se livrou daquele homem na minha cama?

Vi um vulto entrando no banheiro. A porta fosca do blindex se abriu e Ryan entrou pelado no box.

– Ryan! – exclamei inconformada. – Estou tomando banho não percebeu?

– Eu também! – disse se enfiando debaixo da ducha, me espremendo contra a parede.

– Ryan! – empurrei seu peitoral escandalosamente definido. – Saia daqui.

Ele mordeu a boca e me olhou irritado.

– Você costumava gostar quando tomávamos banho juntos.

Suspirei.

– Costumava. Quando estávamos juntos. O que não é o caso agora. Isso significa que não quero mais tomar banho com você.

Ryan segurou em meu braço, me puxou para junto dele e me virou fazendo-me ficar de costas para ele, enquanto a água quente descia sobre nós.

– Você adorava fazer amor comigo debaixo do chuveiro – sussurrou em meu ouvido. – Ontem, durante o show, você não parava de me encarar. Saquei qual era a sua!

– Por favor – falei impaciente – Aquilo faz parte do show! As pessoas gostam desse jogo de sedução. Não foi nada demais!

Ele me girou novamente e ficamos um de frente ao outro. Segurei em seus braços tampados por tatuagens tentando me afastar alguns centímetros dele.

– Não acredito que você não sente mais nada por mim, Sol!

– Nós somos companheiros. Amigos, parceiros de banda. Só isso! O que rolou antes, foi…foi muito bom. Mas acabou.

Ryan me encarou retesando o queixo. Eu costumava gostar quando ele fazia isso.

Ficamos juntos por quase três anos. Os primeiros três anos de nosso estouro na música. Quando o conheci, fiquei totalmente apaixonada. Afinal, ele era o homem que toda mulher gostaria de ter. Magro, mas extremamente definido. Alto. Olhos cor de mel. Cabelos negros e arrepiados. Trinta e poucos anos. Olhar abrasador e tinha uma pegada…nossa!

Ryan já tocava em uma banda há uns anos. Uma banda relativamente famosa. Ele e seu irmão, Matt. Já eram famosos e já carregavam consigo uma legião de fãs. Mas acabaram brigando com os integrantes da antiga banda e saíram. Quando o conheci pessoalmente, custei a acreditar que dividiria palco com eles. Fiquei cega de paixão.

Ele também ficou louco por mim.

Nos primeiros seis meses, não dissemos nada para ninguém. Mas a química entre nós era visível e as pessoas começaram a torcer para que nós dois ficássemos juntos. Então, aprovados por todos, decidimos declarar em público, o que fazíamos somente quando estávamos na cama: declaramos nosso grande amor.

Éramos um só. Fazíamos tudo juntos.

Mas isso é tudo muito bonito no começo. Depois, cansa. Fica comum, sabe?

O sucesso da banda aumentava cada vez mais e pilhas de homens se candidatavam à namorado da vez.

Então percebi que monogamia não era algo que me atraia. Eu era nova demais, famosa demais e rica demais. Pra quê ficar atrelada num corpo só, quando eu tinha vários outros para aproveitar? Então, terminei. E desde então, dezenas de homens conheceram o meu corpo, e eu o deles.

Achei que ele iria logo se conformar e voltar a namorar as Angels da Victoria Secret como sempre fazia, antes de me conhecer e formarmos uma banda. Mas não. Grudou em mim como um carrapato. Estávamos há um ano e meio separados e Ryan ainda não havia superado o fim do namoro.

– Você tem a mulher que desejar, Ryan! Por que eu?

– Porque eu te entreguei meu coração, Sol. E você esqueceu de me devolver.

Revirei os olhos.

– Só para constar, achei super cafona isso.

Ryan passou as mãos nos cabelos molhados e os colocou para trás.

– Quem era o cara que você levou para seu quarto ontem?

– Ryan… – revirei os olhos novamente.

– Quem era, Sol?

Eu não respondi.

Ele, então, soltou um riso inconformado.

– Você nem sabe quem é, estou certo?

Não respondi novamente e fitei o chão.

Ele suspirou balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Prefere a companhia de um estranho do que a minha. Isso é…isso é… – espremeu a boca e passou a mão fortemente no rosto.

– Pra que se torturar desse jeito? Supere! Bola pra frente.

– Sol, nós somos o casal da mídia! Os fãs da banda torcem pra a gente voltar! Você não entende? Fomos feitos um para o outro! Nosso rompimento, seguido do seu escândalo, prejudicou a todos – se aproximou colando seu corpo no meu. – Somos o casal ideal, o casal sucesso, o casal riqueza. Lembra-se das capas de revistas que fazíamos juntos? Esses eram os títulos! O mundo inteiro quer ver a gente juntos! Por que você resiste tanto?

– Porque o que eu sentia por você passou. E eu não vou me privar de conhecer outros caras por alguém que eu não desejo mais. Por favor, saia – insisti.

– Você não quer que eu saia. Sei que se faz de durona, mas está morrendo de tesão.

Levantou a mão, passou o dedo entre meus seios, na minha barriga, pela minha virilha até chegar em minha intimidade.

Mordi a parte de dentro da bochecha.

– Viu só! Está excitada. Pronta pra mim!

Segurei na mão de Ryan e forcei seu dedo para dentro de mim.

Ele sorriu com o canto da boca e soltou um gemido.

– Ah! Está quente! – me puxou fazendo meu corpo colar ainda mais no dele.

Aproximei minha boca de seu ouvido, mordi o lóbulo de sua orelha e sussurrei:

– Eu transei a noite toda! Devo estar fervendo mesmo, Ryan! Não sinto mais nada por você. Supere!

Ryan tirou seu dedo de dentro de mime se afastou olhando-me com rancor.

Eu soltei uma gargalhada me divertindo.

– Você mudou muito, Sol!

Gargalhei novamente.

– Mudei! Essa sou eu. Agora saia e me deixe tomar banho – falei com aspereza.

Ryan rangeu os dentes e cerrou os olhos.

– Vou sair. Mas antes…

Me puxou pela cintura e me beijou. Depois me virou de costas, me empurrou fazendo-me curvar e entrou em mim brutalmente.

– Ryan – gritei. – Não!

– Se não quer por bem, será por mal.

Começou as fortes investidas.

Eu segurei no registro do chuveiro e o apertei com enorme força. Espremi os olhos e a boca sentindo as estocadas dele alcançarem meu útero.

– Pare – um fio de lágrima escorreu de meus olhos. – Pare! Está me machucando!

Mas ele não parava. Continuou o vaivém até chegar ao clímax e urrou de prazer, jorrando em mim.

Assim que me livrei de sua intimidade, girei meu corpo, o empurrei e sai do box. Peguei uma toalha, cobri meu corpo e sai do quarto chorando. No corredor do hotel, algumas pessoas me olharam surpresas. Outras já pegaram seus celulares e começaram a tirar fotos. Bati forte na porta até Luigi abrir. Entrei no meu quarto e logo mais, Ryan entrou também enrolado em uma toalha.

– Saia! Não quero olhar na sua cara! Saia daqui – gritei.

Luigi imediatamente fechou a porta.

Aí vinha bomba.

– Sol! Me perdoe! Eu me descontrolei! – falou compungido.

– Você acabou de me estuprar, Ryan! Isso é inaceitável!

– Desculpe! Você me provocou! Estou sob o feito de drogas! Desculpe-me! Por favor! Eu…eu…

– Sob o efeito de drogas? Vai mesmo usar essa desculpa esfarrapada? Você fica sob o efeito de drogas o tempo inteiro Ryan! – gritei ainda mais alto.

– Mas o que está acontecendo aqui?  – Luigi finalmente perguntou. – Minha nossa! Qual palavra da frase “Vamos evitar escândalos” vocês não entenderam? – disse exasperado.

– Ryan me estuprou, Luigi.

– Como é que é? – falou desacreditado.

– Eu…eu estava fora de mim. Eu não dormi. Estou sob o efeito de drogas até agora…eu…

Luigi se aproximou de Ryan e meteu a mão na cara dele com força.

– Saia daqui! Vá para seu quarto se arrumar! Temos que voltar para o Brasil. Depois conversamos.

Ryan colocou a mão no rosto, me olhou alquebrado e saiu.

Luigi me abraçou e esmoreci em seus braços aos prantos.

– Estou tão cansada. Cansada disso tudo! Cansada dessa vida Luigi! O que eu me tornei? O que eu me tornei? Eu sou repugnante! Ele tem razão! Eu o provoquei e…

– Shhhhhh! Não importa o que você tenha feito, se você disse não, ele tinha que aceitar. Não é culpa sua! O erro é dele de força-la a fazer algo que não queria.

– Eu me tonei uma pessoa desprezível Luigi! Tenho nojo de mim mesma!

– Ah minha querida – disse alisando minha cabeça. – Você sofre muita pressão de todos os lados! Não é fácil! As pessoas acham que essa vida de rock star é só glamour! Mal sabem dos sacrifícios que você faz! Mas agora venha! Vou cuidar de você! E prometo que aquele homem das cavernas nunca mais vai encostar um dedo em você, a não ser que queira. Mas não podemos mais nos envolver em escândalos, Sol! Perdemos muitos shows por causa daquela sua…

– Eu sei! Eu sei! Eu me arrependo. Prejudiquei toda a banda por causa das minhas loucuras.

– Isso, querida! – acariciou minha cabeça. – Perdemos milhões em contratos, fora a fortuna com advogados. Por isso, temos que ser mais cautelosos.

– Preciso de um cigarro.

– Não! Agora o que você precisa é de um banho de verdade e de uma boa refeição. Vá! Vou ficar de guarda. Ninguém irá te perturbar.

Sorri com ternura e me direcionei para o banheiro.

Demorei no banho. Esfreguei minha pele até sair toda sujeira de mim. Já estava me arranhando toda, mas continuava a esfregar até perceber que eu não estava tentando limpar sujeira alguma, estava tentando limpar minha dores, minhas frustações. Limpar a sujeira da minha alma.

Sai do banheiro enrolada na toalha. Peguei meu violão escorado no canto do quarto e comecei a cantar uma de nossas músicas, também escrita por mim.

 

Todo caminho é feito de escolhas

Toda escolha, feita de consequências

Toda consequência é feita de sucessões de caminhos.

Todo caminho é feito de escolhas.

 

A vida nada mais é que um círculo

Que nos permite errar, nos permite recomeçar

Recomeços imaturos, recomeços tardios

Mas recomeços. Pare para pensar

 

Quem nasce pronto a ponto de dizer

Que errar é para os fracos?

Errar é para os fortes, que diante de seus erros

Consegue enxergar o enorme acerto

Que as suas escolhas o fizeram perder

 

Mas o tempo, hora amigo, hora inimigo

Nos dá uma grande lição

Nos faz perceber que até uma dolorida queda

Nos prepara para incríveis saltos, uma evolução

 

Osso quebra mas se regenera

Lágrimas molham, mas cessam

E avante das grandes provações

Há um sorriso a nossa espera

 

Quem nasce pronto a ponto de dizer

Que errar é para os fracos?

Errar é para os fortes, que diante de seus erros

Consegue enxergar o enorme acerto

Que as suas escolhas o fizeram perder

 

Parei de tocar e fiquei encarando o nada, esperando minhas lágrimas cessarem e meus ossos enfim, regenerarem.

Luigi bateu na porta e logo entrou.

– Honey bee! – falou suavemente – Está pronta?

Encarei Luigi, respirei fundo e respondi com convicção:

– Sempre!